12/05/2026

Documentário revela história do brincante Geovane “Bomba”

EVANDRO JR. NA MIRA

SÃO LUÍS – Quando o boi entra no terreiro e a multidão acompanha o som das matracas, pandeirões e orquestras, existe alguém sustentando tudo por dentro. Debaixo do couro bordado, escondido da maioria dos olhares, está o miolo do boi, o homem que dança, gira, corre e dá vida ao brinquedo.

É desse lugar invisível que emerge a história de Geovane Correia, protagonista do documentário ‘Bomba: no miolo da história, produzido pela Versobaiô e com pré-estreia marcada para o dia 15 de maio, às 19h, no Cinema Sesc Deodoro, em São Luís. A sessão contará com a presença dos diretores Lauande Aires e Igor Nascimento, com a presença do próprio Geovane, conhecido como Bomba, que verá o filme finalizado pela primeira vez.

O documentário acompanha Geovane em sua rotina, entre o trabalho, os encontros familiares, a religiosidade e a preparação para brincar o boi, revelando também as marcas físicas deixadas por décadas carregando o brinquedo no corpo.

Para o diretor e pesquisador Lauande Aires, o documentário nasce também como um gesto de reconhecimento e reparação simbólica.

“O bumba-meu-boi é construído por muitas mãos, muitos corpos e muitas histórias que quase nunca aparecem. O Geovane representa tantos outros brincantes que sustentam a nossa cultura popular há décadas, mas permanecem invisíveis para grande parte da sociedade. Esse documentário é uma forma de iluminar essas trajetórias, de reconhecer a importância dessas pessoas e de afirmar que elas também são protagonistas da memória e da identidade cultural do Maranhão.”, destaca o diretor, ator e pesquisador Lauande Aires.

A origem do documentário está em uma cena difícil de esquecer. Em 2000, Geovane subiu de joelhos os 47 degraus da Capela de São Pedro carregando o boi nas costas, pagando uma promessa. A imagem inspirou o espetáculo teatral ‘O Miolo da Estória, criado em 2010 por Lauande Aires e reconhecido nacionalmente ao integrar o circuito Palco Giratório do Sesc e receber o Prêmio Funarte Myriam Muniz.

Agora, 16 anos depois, a história retorna às telas em forma de documentário. Desta vez, voltando-se não apenas ao símbolo, mas ao homem por trás da fantasia, que ele carrega há mais de 46 anos, em diferentes sotaques do bumba-meu-boi como zabumba, baixada, matraca e orquestra.

Um rosto para quem sempre esteve escondido

Nascido em 1969, no bairro da Liberdade, Geovane Ribamar Correia cresceu cercado pela cultura do boi. Filho e neto de brincantes, começou cedo a participar da manifestação e passou por diferentes personagens. Entre eles, Pai Francisco, Catirina, Cazumba, Burrinha e Vaqueiro, até encontrar no miolo sua forma definitiva de brincar.

Ao longo da vida, conciliou os festejos juninos com trabalhos informais e a rotina da periferia de São Luís. Mesmo convivendo hoje com dores nos joelhos, braços, ombros e pescoço, continua brincando movido pela fé, pela memória familiar e pelo compromisso com a tradição.

Homem preto, trabalhador periférico e brincante popular, Geovane representa tantos outros personagens fundamentais da cultura maranhense que permanecem anônimos, apesar de sustentarem a força e a permanência dessas manifestações. O documentário transforma essa presença invisibilizada em memória, registro e protagonismo.

Sobre o documentário

Misturando elementos do documentário poético, etnográfico e participativo, Bomba: no miolo da história atravessa os bastidores do bumba-meu-boi para revelar suas dimensões humanas, espirituais e sociais. A câmera acompanha não apenas o espetáculo, mas o cotidiano de quem dedica a vida à cultura popular.

O filme é uma realização da Produtora Versobaiô e integra as ações de contrapartida do projeto, realizado com apoio do Edital nº 04/2024 – UGCADC/SECMA Mais Produção Audiovisual – Curta Metragem, Governo do Maranhão e Lei Paulo Gustavo.