O Divino resiste. Há mais de três décadas, o Terreiro de Mina Nossa Senhora Santana mantém viva uma das tradicionais celebrações do Divino Espírito Santo em São Luís. A 33ª edição do festejo será realizada entre os dias 10 de julho e 3 de agosto, no bairro do Apeadouro, reunindo rituais religiosos, cortejos, música, culinária e manifestações da cultura popular maranhense. Para os organizadores, a continuidade da festa representa um ato de preservação da memória e de resistência das religiões de matriz africana.
Além da programação religiosa e cultural, o festejo também evidencia os desafios enfrentados pelos terreiros para manter vivas suas tradições. Segundo o sacerdote do Terreiro Nossa Senhora Santana, Cliger Rodrigues de Sousa, conhecido como Pai Cliger, a realização da celebração depende principalmente da mobilização da comunidade, de filhos de santo, vizinhos e frequentadores da casa, diante da ausência de apoio governamental.
Tradição construída ao longo de três décadas
O festejo nasceu há 33 anos a partir da devoção pessoal de Pai Cliger ao Divino Espírito Santo, cultivada desde a infância, quando acompanhava a avó nas celebrações realizadas na Casa de Nagô, uma das mais tradicionais referências do Tambor de Mina no Maranhão.
“O festejo começou muito pequeno. Eu não tinha conhecimento, não tinha condições financeiras, mas coloquei na cabeça que iria fazer”, afirmou em entrevista ao programa Dedo de Prosa. Segundo ele, a celebração foi crescendo gradualmente até se tornar uma das referências entre os festejos do Divino realizados na capital maranhense.
Hoje, a programação reúne dezenas de colaboradores voluntários e mobiliza moradores da comunidade durante várias semanas de preparação.
Fé, cultura e acolhimento
Ao longo do festejo, são realizados rituais como o levantamento do mastro, a abertura da tribuna, ladainhas, cortejos, cerimônias dos impérios, apresentações de Tambor de Mina e o tradicional encerramento conhecido como “lavaprato”.
Para Pai Cliger, a celebração vai além do aspecto religioso. Ela representa um espaço de convivência coletiva e de fortalecimento da cultura popular.
“É uma festa de amor, de congregação, de abertura. Nossa casa está aberta para receber todos. Aqui sempre cabe mais um”, disse ao programa.
Segundo o sacerdote, a festa movimenta dezenas de pessoas responsáveis pela decoração, preparação dos alimentos, organização dos espaços e recepção dos visitantes.
Resistência diante da intolerância religiosa
Durante a entrevista, Pai Cliger também relembrou períodos em que as religiões de matriz africana sofriam repressão policial e perseguições mais intensas.
Segundo ele, embora a realidade tenha melhorado com a ampliação da proteção legal e da conscientização da sociedade, o racismo religioso ainda permanece como desafio.
“Se a gente não lutar e não disser que quer fazer, nunca vamos conseguir cultuar nossa religião da forma que merece”, afirmou.
Na avaliação do sacerdote, fortalecer os festejos tradicionais também significa preservar a história das comunidades de terreiro e enfrentar práticas discriminatórias que ainda atingem seus integrantes.
Pedido de maior apoio do poder público
Outro ponto destacado durante a entrevista foi a dificuldade financeira para manter uma celebração desse porte.
Segundo Pai Cliger, praticamente todos os custos são assumidos pelo próprio terreiro, com ajuda da comunidade e de pessoas ligadas à casa religiosa.
“O governo precisa olhar para a festa do Divino Espírito Santo. Nós não estamos pedindo favor. Estamos reivindicando aquilo que entendemos ser um direito das manifestações tradicionais da nossa cultura”, declarou.
A crítica foi feita em nome dos diversos festeiros que realizam celebrações semelhantes no Maranhão. Conforme afirmou, outras manifestações culturais recebem incentivos públicos, enquanto os festejos do Divino seguem sendo organizados, em grande parte, com recursos próprios dos organizadores. O governo citado não participou da entrevista.
Convite à população
Pai Cliger também fez um convite para que a população conheça a celebração e participe das atividades previstas entre julho e agosto.
“É uma festa de devoção, de acolhimento, de alegria. Todos serão muito bem recebidos no Terreiro Nossa Senhora Santana”, afirmou.
A programação completa do festejo está disponível nas redes sociais do Terreiro Nossa Senhora Santana e inclui cerimônias religiosas, apresentações culturais e momentos de confraternização que reafirmam a importância do Tambor de Mina como patrimônio da cultura e da religiosidade maranhense.
Por: Agência Tambor

