Por Euclides Moreira Neto – Ph.D em Comunicação, Linguagem e Cultura/UNAMA e Prof. do Curso de Jornalismo/UFMA
São Luís chega aos 414 anos como uma velha senhora cheia de títulos, de memórias e de cicatrizes. Tentam defini-la com epítetos bonitos – Ilha do Amor, Cidade dos Azulejos, Jamaica Brasileira, Atenas Brasileira. Mas epíteto não governa cidade. O que governa é projeto. E é justamente de projeto que São Luís anda órfã.
Fundada em 8 de setembro de 1612 pelos franceses Daniel de La Touche e François de Rasilly, sob o nome de Saint Louis em homenagem a Luís XIII, a cidade já nasceu como peça de disputa geopolítica. Durou pouco o sonho francês. Em 1614, os portugueses, comandados por Jerônimo de Albuquerque, tomam a vila. Em 1641, são os holandeses que a invadem e aqui ficam até 1644, quando os lusitanos a retomam definitivamente. Essa dança de bandeiras explica muito do que somos: uma cidade de fronteira, de sobreposição de culturas, de violência e de negociação.
Foi nesse chão instável que desembarcou, em 1653, o Padre Antônio Vieira. Jesuíta, orador maior da língua portuguesa, ele veio para defender os indígenas da escravidão dos colonos e acabou expulso pelos mesmos colonos que queriam mão de obra barata. A expulsão de Vieira é o retrato primeiro do Maranhão que haveria de se repetir: o interesse privado acima do interesse público, o lucro imediato acima do humano.
Porque a cidade que se ergueu a partir dali, inspirada no traçado do engenheiro-mor Francisco Frias de Mesquita e depois requalificada sob a lógica pombalina do Marquês de Pombal, foi feita com suor e sangue africano. Foram os africanos trazidos à força, nos porões dos navios negreiros, que carregaram pedra, levantaram sobrados, assentaram azulejos portugueses, cozinharam, cantaram e pariram esta capital. São Luís é colonial porque é negra. Sua arquitetura pombalina, com suas sacadas em ferro, seus beirais e seu casario que deslumbra o mundo, só existe porque houve escravidão. Esquecer isso é cometer uma fraude histórica. Lembrar disso é reconhecer quem de fato erigiu esta cidade.
Houve tempo de fausto. O ciclo do algodão, no final do século XVIII e início do XIX, colocou São Luís no centro da economia mundial. Éramos ricos. Exportávamos para a Inglaterra. Construíamos palacetes. Depois, vieram as fábricas de tecido – o Rio Anil, a Santa Amélia, a Camboa – que fizeram daqui um polo industrial. Tudo ruiu. Os investimentos não foram suficientes para a manutenção do progresso. Faltou visão de longo prazo. Sobrou ostentação.
O que ficou desse fausto foi outra riqueza: a intelectual. Mandamos nossos jovens estudar em Coimbra, em Paris. Voltaram falando francês nas esquinas, recitando Camões e fundando jornais, academias, livrarias. Daí nos chamaram de Atenas Brasileira. O título era merecido. Fomos a cidade de João Lisboa, de Sotero dos Reis, de Aluísio Azevedo, de Graça Aranha, de Ferreira Gullar. Uma cidade que pensava o Brasil a partir da ilha.
O que fizemos com essa herança?
Hoje vivemos um paradoxo cruel. Temos o maior acervo de azulejos da América Latina se esfarelando por falta de política de preservação. Temos o Bumba Meu Boi, Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, e o Tambor de Crioula, também reconhecido pela UNESCO, tratados como atrações de palco, não como fundamentos de uma política cultural permanente. Temos embarcações únicas no mundo, temos mangues, temos uma baía monumental, temos o reggae que nos fez Jamaica Brasileira. Mas o que temos de projeto de cidade?
O que se vê é a lógica perversa da valorização do que vem de fora e do desprezo pelo que é da terra. Gastam-se milhões em cachês astronômicos de artistas nacionais para três dias de festa, enquanto grupos de bumba boi,tambor, quadrilha e blocos tradicionais mendigam editais de valores irrisórios, pagos com atraso, quando pagos. É o pão e circo modernizado. Dão migalhas ao povo da terra e banquetes a quem já tem palco no Brasil inteiro. É um desestímulo, um desrespeito ao fazedor raiz, àquele que sustenta a cultura o ano inteiro e não só em junho.
O sintoma mais gritante é a Passarela do Samba. Há anos, mestres e brincantes pedem um espaço digno para desfilar. Nada. Nenhum governo, nem municipal nem estadual, se comprometeu de fato a construir uma. Enquanto outras capitais consolidaram seus sambódromos e suas cidades da cultura, São Luís empurra seu carnaval para a improvisação, para a rua esburacada, para o “dá um jeitinho”. É a metáfora perfeita da nossa gestão cultural: sem lugar.
E tudo isso se repete na política. O pleito eleitoral é conduzido com a arrogância do fio de metal, do dinheiro. Nela ganha quem tem mais “bala na agulha”, como diz o povo. O debate de ideias, a escuta da população, o compromisso com demandas sociais concretas – saneamento, mobilidade, educação, cultura – fica em segundo plano. Vivemos momentos sóbrios, de incertezas, dúvidas e angústias.
Mas nem tudo é desesperança. O que nos alenta, nestes 414 anos, é que a cidade ainda resiste na sua gente. No senhor que conserta o barco no Dique, na senhora que bate o tambor no bairro da Liberdade, no menino que aprende a tocar o pandeiro do boi no quintal de casa, no professor que insiste em ensinar história local numa escola sem biblioteca.
São Luís não precisa de salvadores de fora. Precisa de bom senso. Precisa de gestores que dialoguem com a população, que assumam compromissos, que entendam que azulejo não se come, mas identidade alimenta. Que bumba meu boi não é só show, é economia criativa, é emprego, é educação. Que o povo não quer só festa. Quer dignidade.
São 414 anos. Somos mais velhos que muitos países. Já fomos franceses, holandeses, portugueses. Fomos capital do algodão, capital da indústria têxtil, capital da poesia. Podemos ser, de novo, a capital do que nos é próprio, se tivermos coragem de olhar para dentro.
Ainda há luz no fim do túnel. Mas ela não virá de fora. Virá do terreiro, do quintal, da oficina, da escola, da rua. Virá de quando entendermos, enfim, que ser Atenas não é citar grego. É pensar a própria pólis.

