14/04/2024
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Ministro da Agricultura usa funcionários de estatal

DEU NA FOLHA DE SÃO PAULO

Afilhados do PMDB contratados pela Conab trabalham para Wagner Rossi

Transferência deixa acéfalos postos de chefia de empresa que organiza o mercado de produtos agrícolas

JOSÉ ERNESTO CREDENDIO
ANDREZA MATAIS
NATUZA NERY
DE BRASÍLIA

Depois de inchar a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, transferiu para seu gabinete funcionários contratados sem concurso e até hoje remunerados pela principal estatal do setor agrícola.
Antes de assumir a pasta, Rossi dirigiu a companhia de junho de 2007 a março de 2010. Em sua gestão, ele mais do que quadruplicou o número de cargos de confiança na empresa. Ao sair de lá, levou pelo menos sete funcionários para seu gabinete.
Esses servidores continuam recebendo salários da Conab e deixaram acéfalos seus postos na empresa. Entre eles há funcionários que ocupavam cargos de chefia na Conab, como as gerentes de eventos e de acompanhamento de programas.
A assessoria de Rossi justificou os empréstimos dizendo que o ministro “trouxe profissionais graduados que trabalharam com ele na Conab para auxiliá-lo”, mas não fez comentários sobre o impacto que a transferência teve na atuação da Conab.
Responsável pela organização do mercado agrícola e do abastecimento de comida no país, a Conab virou nos últimos anos um cabide de emprego para afilhados políticos e parentes de caciques do PMDB, o partido de Rossi.
Como a Folha mostrou ontem, ganharam cargos um filho do líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL); a ex-mulher do líder do partido na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN); um neto do deputado Mauro Benevides (CE); e um sobrinho do ex-governador Orestes Quércia, peemedebista histórico que morreu no ano passado.
Levantamento feito pela Folha mostra que o apetite político por cargos na máquina do ministério foi muito além de postos estratégicos, como diretorias e superintendências. Até mesmo funções do segundo escalão são usadas para abrigar aliados.
Servidores de carreira da Conab dizem que nunca viram alguns dos funcionários apontados pela Folha. O fato de muitos estarem a serviço do ministro da Agricultura é um dos motivos. Além disso, alguns apadrinhados atuam fora de Brasília, embora estejam lotados na capital.
Um desses casos é o de Adriano Quércia, o sobrinho do ex-governador, que vive em São Paulo. Ele trabalhou com o filho do ministro, o deputado estadual Baleia Rossi, em campanhas eleitorais no passado. Baleia é presidente do PMDB paulista.
PMDB e PTB se revezam no controle da Conab desde o governo Lula. O atual presidente é da cota petebista, assim como o procurador-geral da empresa. O PMDB possui três diretorias e o PT, uma.
Um desses apadrinhados abriu uma crise política na Conab há duas semanas. Oscar Jucá Neto, irmão do líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), deixou a diretoria financeira do órgão dizendo que na estatal “só tem bandido”.
A crise já derrubou o braço direito de Wagner Rossi, Milton Ortolan. Ele deixou a secretaria-executiva do ministério no fim de semana após reportagem da revista “Veja” afirmar que um lobista despachava no ministério e distribuía propinas com o conhecimento de Ortolan.

Dilma mede risco político de faxina na pasta do PMDB

DE BRASÍLIA

Assessores da presidente Dilma Rousseff dizem que ela reeditará no Ministério da Agricultura a faxina feita nos Transportes se for necessário, mas que mede o risco que a atitude traz para a governabilidade no Congresso.
A determinação do Planalto é agir com “prudência”, mas sem dar sinal de que está disposto a tolerar desvios éticos em nome da convivência política com o PMDB.
A assessoria de imprensa informou ontem que Dilma confia nas investigações conduzidas pelo próprio ministério. Mas, em conversas no fim de semana, a presidente mostrou-se incomodada.
Mandou a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) cobrar uma “resposta à altura” do ministro Wagner Rossi às acusações de fraudes e fisiologismo na Agricultura e na Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).
No mesmo dia, Gleisi telefonou ao vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP), padrinho político do ministro. Conforme relatos, ele informou que Rossi está “tranquilo”, mas que se sente desamparado pelo governo.
A oposição promete obstruir as votações no Congresso e fazer nova ofensiva a fim de criar uma CPI.
“Vamos radicalizar com o objetivo de sensibilizar a classe política”, disse o líder do DEM na Câmara, ACM Neto (BA). Ele afirmou que seu partido também vai acionar o Ministério Público.
“Depois do mensalão, a forma utilizada para agradar a base foi distribuir nacos [do governo] aos partidos. Isso levou a uma corrosão da maioria desses ministérios”, disse o líder tucano na Câmara, Duarte Nogueira (SP).
Demóstenes Torres (GO), líder do DEM no Senado, afirmou que a Agricultura poderá ser alvo da CPI caso a oposição consiga as 27 assinaturas para instalá-la.

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