11/06/2026

Projeto Minar transforma disciplina de Artes Visuais em ação de extensão na UFMA. Iniciativa une pesquisa acadêmica e produção audiovisual para documentar o Festejo do Divino Espírito Santo na Casa das Minas.

UFMA e cultura popular: Projeto Minar transforma disciplina de Artes Visuais em ação de extensão

Equipe do Projeto Minar em visita a Casa das Minas juntos com o dono do local. Foto: divulgação

Estudantes do curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) criaram, em 2026 o Projeto Minar, uma iniciativa de extensão universitária que visa registrar e preservar as tradições do Festejo do Divino Espírito Santo e as memórias da histórica Casa das Minas, em São Luís. Desenvolvido dentro da disciplina Laboratório Artístico e Cultural, o projeto está produzindo um documentário independente para preservar os saberes desse patrimônio cultural maranhense.

Na prática, o Projeto Minar funciona como a ponte que transforma a teoria da sala de aula em experiência de mercado e campo. Lourrana enfatiza que o contato direto com a tradição e os costumes da Casa das Minas, durante o festejo, traz um aprendizado prático que os livros não alcançam. “A academia liga muito a gente à produção escrita, mas nada se compara à vivência de estar aqui e acompanhar a festa. O projeto de extensão tira a gente dos muros da Universidade e coloca a gente aqui aprendendo, observando e ouvindo. Eu mesma nunca tinha entrado na Casa das Minas antes. Então, se não fosse o projeto, não teria tido esse contato”, afirma a estudante.

Estudante Lourrana dos Santos durante entrevista na Casa das Minas. Foto: Sarah Dantas (DCOM)

Essa ponte entre a vivência dos alunos e as diretrizes pedagógicas é sustentada pela professora do curso de Artes Visuais da UFMA e coordenadora do projeto, Luísa Fonseca. “O projeto cumpre seu papel social por meio da documentação audiovisual que estamos fazendo sobre a Casa das Minas. Durante esse processo, imergimos no cotidiano da produção da festa e compreendemos, junto aos integrantes do Querebentã (Casa das Minas), a complexidade e a riqueza desse período. Essa vivência traz a real noção da importância de reverberar os saberes e fazeres de um dos principais pontos de resistência do Maranhão”, destaca.

Para ela, a experiência redesenha a própria formação dos estudantes e propõe um novo modelo para a extensão universitária na UFMA. “O principal ganho para os discentes de Artes Visuais é o fortalecimento de uma formação que interliga produção visual, pesquisa e arte-educação em uma perspectiva decolonial. Esperamos que o Minar incentive outros cursos e, principalmente, a licenciatura a desenvolverem extensões construídas com base no protagonismo das referências regionais, em que elas tenham voz ativa em todo processo de construção da extensão, quebrando lógica tradicional para que essas comunidades não sejam apenas objetos de estudo, mas sujeitos ativos que colaboram em conjunto com a Universidade”, conclui.

A imersão em um território de forte tradição religiosa, como a Casa das Minas, exige que a equipe de filmagem saiba exatamente a hora de ligar e desligar as câmeras. Para os alunos, o respeito ao sagrado dita o ritmo da produção. De acordo com a estudante do curso de Artes Visuais da UFMA e integrante do Projeto Minar, Lourrana dos Santos, as fronteiras de produção são desenhadas pela própria comunidade. “Acredito que os limites éticos, principalmente, vão sendo guiados pelas próprias pessoas que fazem a festa. Como é uma casa de Mina, a gente sabe que o terreiro tem vários segredos. Então, temos respeitado todos esses espaços, tanto que, em alguns dias, foram feitas algumas coisas que a gente não pôde acompanhar, não foi aberto para que viéssemos”, conta ela.

O festejo e a tradição 

Para compreender a importância do registro audiovisual, é preciso entender a singularidade do festejo dentro da Casa das Minas. Diferente de outras celebrações do Divino, no local, a festividade carrega um forte vínculo com o Tambor de Mina e as divindades da casa, tendo o levantamento do mastro da festa como um dos momentos mais simbólicos, que representa, além da fé e tradição, o eixo de ligação entre a terra e o sagrado. Quem detalha essa relação é o dono da Casa das Minas e do festejo, Euzébio Pinto, que explica a profundidade espiritual e a estrutura que sustenta o evento. “A Festa do Divino Espírito Santo aqui é uma tradição e obrigação por parte religiosa pois, por trás dessa festa, há toda uma fundamentação espiritual ligada à própria história da casa. Para os dias de festa, as caixeiras têm como preparação a sua própria fé no Divino, enquanto a comunidade atua com os componentes que abrilhantam a festa”, afirma ele.

Parte da Corte Imperial, de 2026, do festejo da Casa das Minas. Foto: acervo pessoal 

Ele também destaca que a organização dos rituais segue uma estrutura rígida de cargos e funções, que ajuda a manter a ordem e o respeito à tradição secular do espaço. “As caixeiras têm sua ‘graduação’, sendo divididas em Caixeira Régia e Caixeiras-Mor. Já os impérios variam de festejo para festejo. Aqui na Casa das Minas, a corte é formada por Imperador, Imperatriz, Mordomos Régios e Mordomos-Mores. Mas existem casas que, além da corte real, contam também com a corte de promessas”, finaliza.

Preservação e legado

Ao unir prática cinematográfica ao rigor da pesquisa acadêmica, o Projeto Minar não apenas documenta um dos festejos mais tradicionais de São Luís, mas também consolida o papel da extensão universitária na preservação da memória local. Mais que um registro técnico, o documentário final se desenha como um testemunho e valorização da cultura popular, garantindo que os saberes da Casa das Minas continuem a ser compartilhados dentro e fora dos muros da Universidade.

Arrecadação e engajamento

Paralelamente ao trabalho de campo na Casa das Minas, a equipe do projeto se mobiliza nos esforços logísticos e financeiros para cobrir os custos da produção audiovisual independente. Essa viabilização financeira ocorre dentro do próprio câmpus, por meio de ações práticas como a realização de bazares. A iniciativa engaja a comunidade acadêmica e transforma o processo de arrecadação em mais uma ferramenta de extensão, ampliando o alcance do projeto e o debate sobre a valorização de tradições locais.

Redes sociais

Acompanhe o projeto e a comunidade da Casa das Minas no Instagram em: @projetominar e @casadasminas

Por: Judson Nunes

Produção da reportagem textual: Sarah Dantas

Reportagem audiovisual: Rildo Corrêa

Imagens: Agda Matias

Fotos: Sarah Dantas e acervo pessoal