13/06/2024
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Quem escreveu ‘Babilônia’?

MAURICIO STYCER

Diante do mau resultado da novela, autores lembram a responsabilidade da Globo pelas mudanças na trama
A trajetória de “Babilônia”, cujo último capítulo foi exibido nesta sexta-feira (28), ajuda a colocar em seu devido lugar um dos profissionais mais bem remunerados e superestimados do mercado: o autor de novela.
Não é a primeira vez que um folhetim tem o seu enredo modificado e a duração encurtada por ordens superiores. Mas poucas vezes se viu tamanha barafunda quanto a que envolveu a novela de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga.

O primeiro capítulo de “Babilônia”, exibido em 16 de março, teve beijo na boca entre duas senhoras, duas cenas de sexo casual, golpe do baú, Réveillon em Paris, traição, menina ingênua enganada por homem casado, gravidez indesejada, exploração na fila do transplante, duas chantagens, um atropelamento e um assassinato.
O ritmo não se manteve, lógico, mas outros temas polêmicos foram introduzidos nos capítulos seguintes. Um agenciador de garotas de programa seduziu uma menina de classe média para transformá-la em profissional do sexo. Corrupto e infiel, o prefeito de uma cidade do interior conquistou o seu eleitorado com um discurso religioso e moralista.
Duas semanas depois da estreia, comentei na “Ilustrada” sobre a ousadia do beijo entre as personagens de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. O texto terminava assim:
“Desperta curiosidade ver como a Globo lidará com a pressão para atenuar o debate proposto em ‘Babilônia’. Pesa contra a novela, neste início, um resultado no Ibope muito abaixo da expectativa. Grupos de discussão estão sendo feitos para ouvir a opinião dos espectadores. A bandeira de Teresa e Estela, desconfio, corre riscos. Espero estar enganado.”
Os temas propostos por “Babilônia” provocaram reações. O cartunista Ziraldo gritou: “Fernanda Montenegro não tem direito de fazer apologia do afeto homossexual”. Alguns telepastores evangélicos pediram boicote à novela e ao seu patrocinador. E muitos espectadores mudaram de canal.
Assustada, a Globo determinou mudanças. Uma trama prevista, a que faria um dos galãs (Marcos Pasquim) se envolver com um personagem gay, negro e morador da favela, foi cancelada antes mesmo de começar.
As duas senhoras até se casaram, mas nunca mais se beijaram. A jovem que seria aliciada para prostituição se tornou vendedora de loja. Às pressas, deu-se espaço para um triângulo amoroso com tintas de chanchada entre dois amigos que dividiam um apartamento no Leme e uma moradora da favela.
Em entrevista a “O Globo”, Gilberto Braga lembrou que a sinopse da novela havia sido aprovada dois anos antes pela mesma emissora que agora pedia as mudanças. Ricardo Linhares, falando ao site Notícias da TV, observou: “Todo programa de TV pertence ao produtor. A novela não é do autor da sinopse. É da emissora”.
Posso assegurar que Braga e Linhares não teriam feito essas observações em caso de sucesso da novela.
Em matéria de audiência, “Babilônia” obteve com alguma frequência números inferiores aos da novela das 19h30, “I Love Paraisópolis” –uma “humilhação diária”, ironizou Braga.
Na média, a novela se manteve como o principal produto da televisão aberta brasileira, mas em um patamar de audiência inferior. Cabe a João Emanuel Carneiro, com a “A Regra do Jogo”, que estreia amanhã, a missão de reverter esta curva.

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