Rio – Ícone do samba, Noca da Portela morreu neste domingo (17), aos 93 anos. Ele estava internado desde o dia 30 de abril no Hospital Assim Medical, em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio, para tratar uma infecção pulmonar. No último dia 10, chegou a ser transferido para o Centro de Terapia Intensiva (CTI) da unidade, após apresentar piora no quadro clínico. Ele faleceu às 17h05 de hoje, segundo o boletim médico.
O primeiro mestre-sala da escola, Marlon Lamar, também lamentou a perda: “Sambistas não morrem; o pandeiro silencia na Terra, mas o céu ganha mais uma estrela para manter o samba eterno. Ao nosso imortal mestre Noca, toda a nossa reverência. Meus sentimentos a todos os portelenses”, declarou.
“O Fluminense FC recebe com enorme pesar a notícia do falecimento de Noca da Portela, um dos grandes artistas tricolores da história do samba. Tricolor ‘de corpo e alma, de coração’, como cantou, Noca é um dos compositores de ‘Gosto que me enrosco’, samba da sua Portela de 1995 que ganhou as arquibancadas do Maracanã, na voz da torcida do Fluminense, após encantar a Sapucaí. Noca nos deixa com muita tristeza, mas com o orgulho imenso de poder dividir seu coração azul e branco com as três cores que traduzem tradição. Obrigado por tudo, mestre”, escreveu o clube.
Ainda criança, mudou-se para o Rio de Janeiro com a família. Filho de um professor de violão, trabalhou como feirante durante a juventude, mas acabou seguindo o caminho da música, estudando violão e teoria musical na Ordem dos Músicos do Brasil.
Noca começou a compor ainda adolescente e iniciou sua trajetória no samba pela Unidos do Catete. Nos anos 1950, participou da fundação da escola de samba Paraíso do Tuiuti, onde assinou sambas-enredo marcantes e consolidou seu nome no meio carnavalesco.
Em 1966, foi convidado por Paulinho da Viola para integrar a ala de compositores da Portela. A entrada na escola aconteceu após um teste aplicado por Candeia, um dos sambistas mais respeitados da agremiação. Na azul e branco de Madureira, Noca construiu uma das trajetórias mais vitoriosas da história da escola.
Ao longo da carreira, venceu disputas de samba-enredo em sete oportunidades na Portela, tornando-se um dos compositores mais premiados da escola. Entre os sambas de maior destaque estão “Gosto que me enrosco”, vencedor do Estandarte de Ouro em 1995; “Os olhos da noite”, premiado em 1998; e “ImagináRIO, 450 Janeiros de uma Cidade Surreal”, um dos sambas mais celebrados do Carnaval de 2015.
Além da atuação na Portela, Noca integrou o Trio ABC da Portela, ao lado de Colombo e Picolino, grupo que ganhou notoriedade em programas de televisão e apresentações musicais nas décadas de 1960 e 1970.
Suas composições ultrapassaram os limites da avenida e foram gravadas por grandes nomes da música brasileira, como Beth Carvalho, Clara Nunes, Alcione e Zeca Pagodinho. Entre suas músicas mais conhecidas está “Virada”, eternizada na voz de Beth Carvalho e associada ao período de redemocratização do Brasil.
Militante do Partido Comunista Brasileiro, Noca também ficou conhecido pelo caráter político e social de muitas de suas letras. No fim da década de 1990, apresentou o programa “Na Casa de Noca”, na rádio 94 FM, dedicado ao universo do samba e à valorização dos compositores populares.
Em 2006, assumiu a Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro durante o governo de Rosinha Garotinho. Mesmo longe dos desfiles oficiais em alguns períodos, manteve forte presença no samba carioca, participando de projetos musicais, gravações e disputas de samba-enredo.
Em 2017, lançou o álbum “Homenagens”. Em 2025, participou do projeto “Coleção Flores Em Vida”, reunindo nomes importantes da música brasileira. Também continuou ligado à Portela, assinando sambas concorrentes para o Carnaval de 2026.
Reconhecido como um dos grandes baluartes do samba, Noca da Portela ajudou a preservar a tradição das escolas de samba e atravessou gerações como símbolo da cultura popular brasileira.



