20/04/2024
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Amor sem revolução (parte 9) – A tribo isolada dos párias

 Félix Alberto – jornalista e poeta

 


Paulinho Nó Cego e Raimundo Garrone

Estudante de Engenharia Mecânica da UEMA, onde também era vice-presidente do DCE, Raimundo Garrone decidiu um dia trocar as aulas de cálculo vetorial no Campus Paulo VI pelas experiências mimeográficas do curso de Comunicação Social da UFMA. Cabeludo, óculos ao estilo Lennon, roupa despojada, Garrone logo fora entronizado na gangorra do movimento estudantil da Universidade Federal do Maranhão – ora altissonante, ora pasmaceira – pelas mãos da elite da militância e, na primeira oportunidade, elegeu-se secretário de cultura do DCE.

O prédio do Pimentão da UFMA era em parte povoado por gente como Garrone, transgressora em questões como sexo e drogas e embalada por boas doses de rock, reggae e poesia. Ali ele estava em casa, vivendo uma ciranda diferente com outros personagens, como Ademar Danilo e Fernando Abreu. Antes de entrar para o curso de Comunicação, em 1985, Ademar frequentou as salas de aula de Direito e Filosofia, empunhou bandeira como presidente de diretório acadêmico (D.A.) e candidato a vice-presidente do DCE na chapa “Guarnicê”, liderada por Francisco Gonçalves. Fernando Abreu também iniciou Direito, foi do diretório acadêmico mas abriu mão de uma promissora carreira jurídica para se entregar à poesia e estudar jornalismo no curso de Comunicação.


Fernando Abreu

Foi nessa atmosfera de mudança, descobrimentos e novas convivências que Garrone começou a descortinar a realidade do movimento estudantil. Os militantes pregavam a revolução e a reforma agrária, mas não falavam de amor, e o discurso do comportamento era refugado, considerado uma ofensa nas reuniões e assembleias estudantis. Falar de sexo ou drogas era uma “atitude pequeno-burguesa”, reacionária.


João Carlos Raposo

Naquele ambiente de contradições entre discurso e prática surgia pelos corredores do campus uma nova fauna. No dia da posse como secretario de cultura do DCE, Garrone decidiu não aparecer na cerimônia e foi beber com amigos no bairro Sá Viana. Entre um gole e outro no bar da Ariziana, por tardes e noites incontáveis, despretensiosamente a conversa alcançava o desregramento dentro e além da universidade. A Garrone, Ademar e Fabreu juntaram-se outros fora do círculo da militância, como João Carlos Raposo, Antonio Carlos Alvim, Guaracy Brito Jr., Ronaldo Reis, Pandora Dourado, Suzy e Mara Fernandes, Paulinho Nó Cego, Maristela Sena, Marcelo Chalvinski e Lisiane Costa. A senha de cada um era a poesia.

Like a rolling stone

Sem patrulhamento político ou estético, havia um grupo em (de)formação, “uma tribo isolada” no meio do campus disposta a chutar pedras e a implodir as fronteiras em poesia e vida, seguindo a tradição romântica, como conta Fernando Abreu. Mas faltava um nome ao grupo. E um caminho.

“Eu acho bastante perigosa essa posição de nós nos definirmos como marginais, porque ninguém é marginal por pretensão”
Fernando Abreu, em entrevista à revista Guarnicê de julho de 1985

Reza a lenda que o nome Akademia dos Párias surgiu num dia de bebedeira, como muitos outros, no bar Cajueiro, no finalzinho da praia da Ponta d’Areia, onde se ouvia repetidamente, segundo Fernando Abreu, uma surrada cópia do LP “Live”, de Bob Marley. Garrone diz que vários nomes foram postos na roda, mas que Ademar Danilo teve uma participação ativa no batismo da trupe. “O nome surgiu no meu apartamento numa rodada de vodka e delírios entre mim e Fabreu. Quisemos evidenciar a contradição entre pompa (academia) e lixo (párias)”, relata Ademar. A identificação de todos com essa “auto-ironia” foi instantânea. “Passamos a ostentar esse nome com orgulho e, surpreendentemente, ele ainda identifica muitos de nós, tanto tempo depois”, pontua Fabreu.


Guaracy Brito Jr.; Paulo Melo Sousa; Antonio Rezende

Quanto a caminhos, a Akademia dos Párias nunca ousou apontá-los. Porque esses acadêmicos da UFMA negavam princípios, bons modos, teoremas e cartilhas literárias. Viviam numa São Luís sem renovação, pacata demais, que cultuava ainda a Academia de Letras e seus poetas quase todos mortos. Os párias, como ficaram conhecidos os estudantes, queriam a cidade menos beletrista, os artistas menos subservientes ao poder e as janelas coloniais mais abertas ao mundo. Acidentalmente, tomavam o caminho de volta ao passado pela contramão. As referências da transgressão eram a geração beat e a contracultura dos anos 1960 e a poesia marginal da década de 1970.

“Eu, por exemplo, quero escrever para as pessoas que estão comigo, que crescem comigo, que são os jovens. Ficar fazendo uma literatura pra velho, fechada, não dá”
Raimundo Garrone, em entrevista à revista Guarnicê de julho de 1985

No calendário gregoriano, o marco zero da Akademia dos Párias foi o lançamento da primeira edição da revista Uns & Outros, no dia 17 de dezembro de 1984, como uma ação da secretaria de cultura do DCE. O local? O Sapeca’s Bar, um dos points mais alternativos da época, meio pé-sujo, por trás da igreja de São João, no centro de São Luís. A revista de estreia trazia poemas da comunidade pária e o alerta de que o grupo não representava um movimento novo na cidade. E que, portanto, não assumiria responsabilidade alguma sobre nada. Daí a ausência de manifesto ou carta de compromissos. No lançamento da primeira revista ficou claro que dali em diante haveria um aglomerado de amigos interessados unicamente em compartilhar afinidades e experiências.

Poetas cambaleantes

A publicação da revista serviria de primeiro passo material para algo que já existia na cabeça de cada um. O conhecimento técnico, o entusiasmo e as ideias do professor Nilson Amorim, do curso de Comunicação, foram fundamentais na feitura das primeiras revistas. “Eu me identificava com a rebeldia dos párias e com todas as iniciativas culturais questionadoras daquele momento”, afirma Nilson, que chegou a escrever na Uns & Outros.

“Por essas ruas inclinadas
eu ando de cabeça erguida
quem não quiser olhar minha cara
que baixe a sua
Sou poeta
e sei o que me espera”

Fernando Abreu

A locomotiva dos párias, contudo, era o recital. Vinhos de garrafão heroicamente entornados em copos de plástico, pequenas nuvens pairando nos becos, poetas cambaleantes à espreita e palavras saltando de mesa em mesa. Com esse cardápio, os sucessivos recitais dos párias viraram símbolo underground dos anos 1980 em São Luís. Eles não se reuniam – feito índios, iam se juntando em bando aqui e ali, garimpando laudas e preparando a seda. Depois vieram mais: Celso Borges, Antonio Rezende, Ribamar Filho, Paulo Melo Sousa, Gisa Franco, Henrique Bóis, Sílvio Martins, Joe Rosa e José Maria Medeiros.

“[A Uns & Outros] é uma poesia com nódoa de nutrição, ruas, sonhos, gestos vergonhosos, desejo sexual, confissões de amor e declarações de ódio, idílios, índios, ilhas, mares, dúvidas, certezas, uma flor com marcas de dente. Uns & Outros é de mau gosto. Uns & Outros é fogo”
Antonio Carlos Alvim, no jornal “O Estado do Maranhão” de junho de 1986

As edições temáticas de Uns & Outros, e mais ainda os recitais, passaram a demarcar a existência dos párias. A revista era vendida a preço módico na universidade, nos bares e em viagens. Uma edição por semestre, pensavam eles. Mas saía quando dava. Havia custos de publicação. Fazer a revista era uma espécie de mutirão do mecenato: alguém doava o papel, o fotolito, a tinta… Por algumas vezes os párias recorriam aos parceiros do Guarnicê: Joaquim Hiackel, além do entusiasmo radical, cedia a gráfica do pai e exemplares da revista Graphis (para recortes providenciais de ilustrações da Uns & Outros); Paulinho Coelho dava uma força na diagramação; e Celso Borges mimetizava entre uma e outra publicação.


Roanldão, Helena Straus e Celso Borges; em campo, párias e a turma da revista Guarnicê

Foram oito edições entre 1984 e 1995. O Oitavo Andar, O Sétimo Mandamento, O Sexto Sentido, O Quinto dos Infernos etc. No meio do caminho veio a fase das camisetas com poemas, uma ideia de Antonio Rezende adotada também por outros párias. Camisetas e revistas eram vendidas em estandes improvisados ao longo do dia – um deles no calor da rua Grande. O apurado ou era convertido em farra ou investido em viagens, especialmente para cidades que sediavam o mal afamado Encontro de Estudantes de Comunicação, o Enecom. A Akademia dos Párias estava em todos os encontros, com suas revistas, camisetas e performances.

Curiosamente, foi de uma dessas viagens que resultou a edição de O Sétimo Mandamento. Garrone e Fabreu receberam um patrocínio para a publicação da revista – o equivalente hoje a cerca de mil reais – e, sem o “consentimento” da comunidade pária, utilizaram o dinheiro para custear “despesas etílicas” num desses encontros realizados em Brasília. De volta a São Luís, Garrone e Fabreu foram surpreendidos por polêmico artigo publicado na imprensa local, assinado por Ribamar Filho, com acusações a ambos de malversação do caixa da revista. Burburinho no ar, os párias decidiram dar o troco e publicaram uma edição especial da Uns & Outros evocando o mandamento bíblico “Não furtarás”. Na contracapa da revista estamparam uma penca de nomes de “ladrões renomados” de São Luís. E, de quebra, fizeram uma homenagem a Gean Genet, escritor, poeta e dramaturgo francês autor, entre outras obras, do livro de memórias “Diário de um ladrão”.

Malditos, controversos e rebeldes

Atitudes anarquistas embalavam a poesia dos párias maranhenses. Herdeiros da abertura política moldada na primeira metade dos anos 1980, iniciaram a aventura do desbravamento folheando malditos, controversos e rebeldes de toda sorte, de diferentes épocas e regiões. “Montamos às cegas nosso paideuma caótico, de Walt Whitman a Lautréamont”, recorda Fernando Abreu. Os párias ajudaram a dessacralizar o ambiente de tradição e pompa até então muito vivo nas iniciativas literárias da cidade e atearam fogo no panteão dos letrados. Poucos escaparam da artilharia. De Ferreira Gullar tomaram versos que serviriam de lema para todas as edições da revista Uns & Outros: “Loucos somos todos em suma/ Uns por pouca coisa / Outros por coisa alguma”.

“homologa:
do padre o vinho
do rasta a ganja
sem droga
ritual algum se arranja”

Ademar Danilo

Bebiam na fonte de Caetano, Chacal, Leminski, Quintana, Luiz Melodia, Ângela Rorô, Cazuza e Lobão com a mesma intensidade com que se entregavam com sede à cultura popular maranhense. Os párias devoravam a música de Chico Maranhão e Josias Sobrinho e perambulavam pelos ritos de passagem do tambor de crioula ao bumba-meu-boi. “Paulinho, Fernando, Ronaldão caladão, João Carlos, Paulão, o pessoal do curso de Comunicação, Suzy, Lisi, Pan, Maristela, que nessa época você encontra mesmo não é na gráfica, onde rola a revista, mas onde estiver o Boi Barrica”, discorreu a jornalista Helena Straus, meio pária, em texto publicado no caderno de cultura do jornal “O Estado do Maranhão” de junho de 1986, saudando o lançamento de mais uma edição da revista Uns & Outros.

Párias e Boi Barrica louvando a “Lua cheia”? Pois é! Pois era outro contexto. Na mesma página do jornal, Pandora Dourado escreveu sobre a tessitura da revista Uns & Outros, uma espécie de “barricada (viva o Maio 68!) contra o que é padrão, os preconceitos e os medos”. A então estudante de Comunicação foi mais longe na definição: “A revista é uma forma que encontramos pra dizer que existimos, que amamos, que odiamos, que rimos, choramos e que fazemos cocô como todo mundo”. A mulher pária também tinha seus caprichos, o seu protagonismo, umas no exercício do poema, outras no vício da festa. Pandora, Suzy e Mara Fernandes, Maristela, Lisiane, Jana Brasil, Karina Thomé, Gisa Franco, cada uma no seu quadrado.


Suzy Fernandes; Pandora Dourado e Mara Fernandes; Lisiane Costa

“a certeza
de que sempre pularei
para o lado de dentro da janela
é minha única desculpa
pra subir tantas paredes”

Mara Fernandes

“Confesso que li pouco nessa época e continuo priorizando a prosa ao verso. Por isso, quando olho para trás (…), me vejo muito mais como observadora e seguidora do grupo pela formação dos laços de amizade que propriamente pelo ofício literário ou amor à poesia”, avalia Maristela Sena. Ela diz que escreveu poucos poemas, quase todos exprimindo um tanto das suas brincadeiras e descobertas sexuais, “nada que se possa levar a sério”. Na opinião de Maristela, as mulheres não estavam diretamente envolvidas com a literatura dos párias, mas com o comportamento pária. “Creio que, no fundo, nenhuma de nós teve tantos destaques”. E prossegue: “Estava tão perdida e oca de referências como qualquer garota que passou 15 anos no interior e que veio pra capital pra fazer ensino médio e entrar na universidade”.

O reggae, a lei e a contravenção

A Akademia dos Párias tinha um pé na Jamaica. Ademar Danilo conhecia o caminho das pedras, mantinha boas relações com a então restrita comunidade regueira e frequentava clubes da periferia de São Luís, como o Pop Som (no bairro da Jordoa), pra onde costumava levar os amigos da universidade. Nas incursões pelos bares, os párias ouviam Bob Marley, Peter Tosh, John Holt e Jimmy Cliff, só pra citar alguns expoentes do reggae na época. Fernando Abreu explica que a identificação do grupo com o reggae era tão forte que resultou na criação do primeiro programa de rádio dedicado inteiramente ao gênero no Brasil. “Tivemos a ideia e levamos a Celso Borges, que dirigia a programação musical da rádio Mirante FM. Ele topou, chamou Ademar e Fauzi Beydoun e daí surgiu o programa Reggae Night”. Essa história, segundo Fernando Abreu, atravessou anos no limbo até ser recuperada no livro “Onde o reggae é a lei”, da jornalista Karla Freire. “O boom do reggae em São Luís teve, sim, o dedo sujo da Akademia dos Párias”, regozija-se.

“Sou
e não sou
Suo”

Garrone

Ademar Danilo põe lenha na fogueira e diz que essa informação não tem pé nem cabeça. “Atribuir alguma coisa nessa história aos párias [de que eles idealizaram o programa Reggae Night] é uma tremenda bobagem e não tem a menor sustentação”. Ele diz que “essa tolice” surgiu no livro de Karla Freire sem que a informação fosse confirmada. “Ela [Karla Freire] publicou um livro sobre o reggae e não teve a preocupação básica de me entrevistar; isso não é soberba minha, mas tenho claro o meu papel nisso tudo”, dispara. “É improvável ter informações confiáveis sobre o reggae em São Luís sem me ouvir”, arremata.

Os párias pregavam uma poesia sem redoma, que poderia ser feita por qualquer um, na simples observação do cotidiano. Jovens que gostavam do “roots, rock, reggae” também poderiam escrever poesia, embora autênticos párias nunca tenham rabiscado uma única linha poética, segundo Fernando Abreu. O que importava, naquele momento, era a atitude pária. E o que queriam eles, afinal? “Fazer poesia, recitá-las, pegar estrada e viver sem hipocrisia”, responde Garrone, carimbando no grupo a pecha beat. “Fomos visto desde cedo como um grupo de poetas jovens, e a cidade não experimentava isso havia muito tempo”, acentua Fabreu. “Éramos uma trupe gauche, uma tribo antes dos tribalistas”.

“Tem um dado a acrescentar sobre os párias: nenhum deles vai à missa aos domingos”
Guaracy Brito Jr., em entrevista à revista Guarnicê de julho de 1985

Para João Carlos Raposo, a experiência pária perdurou porque não tinha credo. “Queríamos beber, fumar, tomar chás, comer cogumelos, ficar doidinhos, contestar o establishment, peitar a caretice”. Sem regulamento, patricinhas, junkies, ripongas e afins orbitavam no balacobaco da Akademia. Era fácil reconhecer os párias porque influenciavam-se mutuamente no comportamento, espelhavam-se uns nos outros. Usavam esse trunfo como defesa coletiva e, assim, eram vistos como um grupo.

Polícia para quem precisa

Tudo acontecia naturalmente, inclusive os eventuais “baculejos” a que os párias eram submetidos nos becos escuros da cidade. Eram tempos de abertura política, mas o aparelho policial ainda respirava sob a nuvem de chumbo da ditadura. “A Polícia Federal, por exemplo, achava que perseguir maconheiro era seu dever cívico”, observa Fabreu. Numa das viagens de ônibus pelo Brasil, alguns párias foram detidos pela polícia em Feira de Santana (BA) sob a alegação de consumo de “cigarros artesanais”. Horas depois, o mesmo policial militar que deu ordem de prisão decidiu à paisana abordar o grupo, na saída da cidade, para pedir “um pouco” daquilo que ele imaginava que os párias tivessem guardado tão secretamente. “E tínhamos?”, desconversa Fabreu.

A semelhança física de João Carlos Raposo com o roqueiro Lobão também rendeu episódio curioso. Para ter acesso ao lendário show de Titãs e Lobão no ginásio do colégio Marista, em 1986, João Carlos – que havia passado o dia enchendo a cara com outros párias na praia da Raposa – valeu-se da aparência e, vestido de preto, de cabeça baixa e “bem aplicadinho”, passou pelo portão lateral da equipe técnica do show sem que ninguém lhe pedisse ingresso ou credenciais. Ronaldão e Antonio Carlos Alvim, também sem dinheiro para os ingressos, não tiveram a mesma sorte. Decidiram então pular o muro do ginásio, que não era baixo. Resultado: enquanto Alvim fora levado ao hospital com fraturas nos pés, Ronaldão era arrastado para o camburão da PM entoando os versos “polícia para quem precisa, polícia para quem precisa de polícia”.

Os párias dividiam opinião dentro e fora da universidade. Os mais conservadores torciam o nariz, atiravam pedras na extravagância dos jovens poetas e minimizavam a poesia feita por eles. A rejeição, entretanto, não desanimava a tribo. Gente mais desapegada aplaudia, comprava a revista e frequentava os recitais. No geral, os párias despertavam mais era a curiosidade de um público enfadado, carente de provocação. Com isso, abusavam da juventude e da alegria para seduzir plateias. Ser pária tinha suas vantagens, dava “ibope”. Os párias eram as celebridades daquele momento cultural de São Luís. Juntavam seguidores, tinham fãs e colecionadores de poemas. “Embora loucos, éramos pessoas que liam”, define Garrone. Ademar Danilo diz que “poesia marginal sempre atraiu as meninas”, daí a popularidade dos párias numa cidade que ainda vivia o ranço da intelectualidade pomposa. “Nós mostramos que ler e escrever não era coisa apenas para fardões”.

Celebridade underground

O pária, nas palavras de João Carlos, era uma celebridade underground ao mesmo tempo admirada e temida. “Algumas pessoas tinham medo da gente”, revela. Ele resgata três episódios que ilustram bem o pico da popularidade dos párias:

– Um dia estava indo para o Bar do Cajueiro (Bar da Tia), na Ponta d’Areia, e passava pelas outras barracas da praia, quando uma mesa em peso começou a gritar: “Poeta, poeta”, me chamando. Resultado: tive que sentar e recitar poesias em plena praia para uma mesa de pessoas que, a priori, muitos pensariam que não se interessariam por poesia.

– Fomos a uma festa, uma carrada de párias, em um hotel no [bairro] Olho d’Água. Quando apontamos perto da entrada, ouvimos as pessoas dizerem: “Os poetas estão chegando, abram passagem para os poetas passarem, deixem eles entrarem…”.

– Um recital feito em Arari, na confraternização de final de ano do funcionalismo municipal, foi um dos momentos mais emocionantes. Antes da festa (no clube de mães da cidade), nos reunimos na casa do prefeito para conversarmos sobre quais poesias falaríamos, já que iríamos recitar para famílias inteiras, se entrariam palavrões, sexo, drogas etc. (coisa que nunca acontecia, de discutirmos sobre o que rolaria; era tudo improviso). Sem chegar a um acordo, decidimos que cada um falaria o que quisesse. Fomos ovacionados, mesmo expondo todos esses temas, e a emoção me levou às lágrimas. Éramos disputados pelas mesas para tomar uma cerveja com eles [os ararienses].


Fernando Abreu e Antonio Rezende em recitais pelos bares de São Luís, com garrafões de vinho nas mesas

Dentro da universidade a fama era tão evidente que, em alguns poucos momentos, os párias chegaram a “emprestar” popularidade às causas do movimento estudantil. Não em nome da Akademia dos Párias, mas, individualmente, alguns deles tomaram partido em eleições de diretórios acadêmicos. Fora do campus também faziam escola. Frequentavam com certa regularidade as páginas de cultura dos jornais da cidade para anunciar as boas novas da Akademia. Em maio de 1986, o pária Antonio Rezende conquistou o primeiro lugar do 6o Festival Universitário de Poesia Falada, realizado no Tratro Arthur Azevedo. “Isto [o resultado do festival] vem provar mais uma vez que a poesia jovem e rebelde dos párias é o que tem de melhor em São Luís atualmente”, disse Pandora Dourado ao jornal “O Estado do Maranhão”, na edição de 8 de junho de 1986.

Escape? Desilusão com os rumos da política e do movimento estudantil? Os párias não reconhecem essa origem. “Praticamente todos tínhamos militância política”, reagem. Deixaram um rastro de trepidação, euforia e fumaça pelos corredores da universidade. Legado soaria arrogante a um pária renitente. Mas, antes das oito edições da Uns & Outros, ficaram as pegadas no livreto Baseados na Ciranda e na antologia do Comunicarte (a tradicional semana de comunicação e arte da UFMA), além da participação de quase todos os párias na revista Guarnicê. Essa antologia, espécie de embrião dos Párias, foi lançada em abril de 1984 com trinta e nove poesias de nove poetas, entre eles César Teixeira (“Abala”), Antonio Carlos Alvim (“Bicho no quintal”), Zé Henrique Santos (“Quando eu partir…”) e Roberto Fernandes (“Talitacun”).

Trinta anos depois dos estilhaços da pedra fundamental, a Akademia dos Párias sobrevive, desintegrada, no imaginário de uns e outros remanescentes daquela geração. Mas sobreviver é pouco para quem foi dependente de alta voltagem afetiva e existencial do bando. Essas coisas não morrem, fecham um ciclo, reinventam-se no tempo e no espaço. A Akademia existiu como deveria, deixou raízes e almas inquietas repousando sob o concreto do Pimentão, e naturalmente dissolveu-se entre uma travessia e outra do rio Bacanga.

Eles lutam, se chilam e vão amar*

Ademar Danilo

Frequência modulada. Rádio FM. Existe coisa mais elitizada no campo da comunicação radiofônica de massa? Certamente o prezado leitor estará mentalizando agora uma resposta negativa: não, não existe nada mais elitizado. Então, por que um programa de reggae na mais conceituada estação da cidade? E logo no horário nobre das noites de sexta-feira? Evidentemente que para responder a tal curiosidade, permita-me, caro e atento leitor, que discorde nu e frontalmente da opinião citada no início. Para este nômade redator, a questão é mais embaixo. Até algum tempo atrás era mais nítida a diferença entre as estações AM e FM. As primeiras com uma programação de caráter popular, e as segundas mais às voltas com a camada burguesa da população. Claro que com a política de concessão dos canais de radiodifusão, seja ele AM ou FM, deixará de atender aos interesses da burguesia, mas o que interessa são os espaços utilizados de maneira inteligente. Palavras no ar fazendo pensar, atiçando as vontades reprimidas.

Para mim, a diferença mais marcante entre AM e FM é o comprimento das ondas. As rádios FM, com efeito, se levaram ao ar uma revolução em termos de linguagem de rádio, coube às AMs acompanharem o pique, sob pena de sucumbirem à modernidade. A proximidade e a interferência do ouvinte na programação de qualquer emissora são uma prática bastante saudável. Uma estação de rádio deve ter em seus quadros pessoas sensíveis o suficiente para identificar os gostos da comunidade aonde está atuando (ponto para a Rádio Mirante).

Mas, e o reggae, o que tem a ver com todo esse lero-lero? Ah, aí é que está a questão. Quem tiver o mínimo senso de orientação já deve ter percebido que o reggae rola solto pelas velhas ladeiras do Centro, como pelas precárias pontes de tábuas nas palafitas sobre a lama. A Mirante FM teve a sensibilidade de sacar isso e se adiantou. O reggae é o ritmo musical mais politizado do mundo. Quase todas as letras trazem algum tipo de mensagem de caráter social. Além de política, uma das grandes preocupações dos músicos jamaicanos é a ganja, consumida fartamente a fim de que aumente a intensidade das sensações durante o transe místico. É, na verdade, uma lombra eterna, eles são muito doidos. Por fim, as letras sempre se referem à mais sublime das manifestações emocionais de humanidade: o amor. Completada a tríade do prazer regueiro: eles lutam, se chilam e vão amar.

As semelhanças entre São Luís e a Jamaica ultrapassam os limites da mera coincidência. Porém é mera coincidência. Até o comportamento das pessoas que fazem do reggae uma maneira de sobrevivência e que não são artistas é parecido. Por exemplo: aqui os proprietários de salões de reggae (na Jamaica são chamados “sound systems”) escondem as capas dos discos para que os concorrentes não descubram que som está rolando. Lá é a mesma coisa.

Outra semelhança marcante é a população negra predominante nas duas ilhas. Isto talvez explique as afinidades da população ludovicense com o ritmo jamaicano. Afinal, quem tem cintura mole não consegue resistir aos apelos hipnotizantes do reggae e cai na dança. Deslizar pelo salão… que atitude mágica!
Falar em salão de reggae é falar do Pop Som, na Jordoa. Lá foi comemorado o primeiro aniversário do nosso programa. O Pop tem a melhor discoteca de reggae do Maranhão, quiçá do Brasil. E a melhor notícia é que o Sr. José Baldez, proprietário do salão, está dando a maior força emprestando seus discos pra gente.

São 52 programas em 1 ano, e parece que foi ontem que eu e Fauzi começamos a invadir os radinhos de vocês dando um AXÉ toda sexta-feira. Nesse primeiro ano muita coisa rolou e muita coisa também deixou de rolar. Travei contato no Rio de Janeiro com a moçada da rádio Fluminense FM, a Maldita, e eles já estavam doidinhos para conhecer a gente. Haviam tido noticias nossas e ficaram de fazer uma visita à nossa ilha qualquer hora dessas.

Agora, passado um ano, temos a grata constatação de que abrimos um espaço até então inexistente nos meios de comunicação daqui. Hoje em São Luís várias camadas marginalizadas da população têm um ponto de encontro em FM. Tentamos com isso desmistificar a ideia de que FM é somente para a elite dominante. As ondas de rádio são uma conquista tecnológica para a humanidade, e em seu nome devem ser ocupadas, ondas livres para todos.

Passando o tempo, temos a constatação de que estamos fazendo um lance legal. Recebemos muitas cartinhas, dos mais variados lugares: Coroadinho, Alemanha, Bairro de Fátima, Maiobão, Anjo da Guarda, São Francisco, Calhau, Anil e muitos outros bairros da ilha. Até de Paço do Lumiar, Alcântara, São José de Ribamar e Rosário já recebemos correspondência. Os lavadores de carro do Centro da cidade nas noites de sexta se reúnem-se para ouvir a Mirante da mesma forma que uma moçada da Liberdade coloca seis aparelhos de rádio em um canto e fica tomando uma cachacinha, e o motorista de taxi que só sai para trabalhas às sextas depois das 10 da noite. E pensar, prezado leitor, que a Jamaica fica a muitas e muitas milhas náuticas daqui… (*texto publicado em maio de 1986 em encarte da Rádio Mirante FM no jornal “O Estado do Maranhão”, por ocasião do aniversário de um ano do programa Reggae Night)

Fotos: arquivo do jornal “O Estado do Maranhão”/arquivo Akademia dos Párias/arquivo Guarnicê

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