21/05/2024
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CAIXEIRAS DO DIVINO QUEREM TOCAR ATÉ MORRER


Raiza Carvalho – Da equipe de O Estado

Graça e Dindinha Menezes Caixeiras

“Eu amo tocar e cantar. O Divino Espírito Santo determinou isso para mim e eu vou tocar até o último dia da minha vida”, declarou Maria José Menezes, mais conhecida como Dindinha, sobre sua vocação apaixonada para ser caixeira na Festa do Divino Espírito Santo. Dindinha, Zezé, Graça e Bartira integram as Caixeiras da Família Menezes, que lançarão o CD “O divino som”, às 19h, hoje, no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho.

As quatro caixeiras são responsáveis por realizar a Festa do Divino Espírito Santo há 11 anos, em São Paulo. Esta festa busca reproduzir o ritual nordestino em terras paulistas, congregando as ladainhas, cortejos, danças, toques e oferecimento de refeições. As caixeiras apresentarão ao vivo para o público o trabalho cuidadoso executado no CD. As canções dedicadas ao Divino conjugam versos solo e coros com doçura, harmonizando com a execução perfeita dos toques ritmados que revezam entre batidas leves e pesadas, lentas e rápidas.

Com apoio do Ministério da Cultura, Companhia Hidroelétrica do São Francisco, revista Caros Amigos, Rádio Educadora AM 560 KHZ e Secretaria Estadual de Cultura do Maranhão, o CD foi lançado na 12ª Festa do Divino Espírito Santo em São Paulo. Em entrevista, as caixeiras Dindinha e Graça (Maria das Graças Reis de Menezes), falam sobre a realização da Festa do Divino Espírito Santo em São Paulo e as diferenças essenciais entre ela e as celebrações maranhenses.

O Estado – Como surgiu o projeto de realizar a Festa do Divino Espírito Santo em São Paulo?

Dindinha – Fui para casa de uma irmã em uma visita à cidade. Ela sugeriu que eu realizasse a oficina de canto e toque para caixeiras e depois me orientou a realizar a Festa do Divino Espírito Santo. Eu logo recusei porque precisa de muita responsabilidade para realizar a festa, qualquer erro ou problema que acontecesse eu seria a responsável. Até que uma sobrinha minha ligou para o Pai Euclides contando a história, e ele me ordenou a fazer. Trouxemos tudo de São Luís: as roupas, o trono, as crianças e as bandeirinhas. As participantes da oficina de caixeiras também participaram com seus filhos. A primeira festa foi um sucesso, o público achou lindo!

O Estado – Quais são as diferenças essências nas apresentações da festa em São Luís e em São Paulo?

Graça – São Paulo é uma cidade cheia de barreiras burocráticas, então qualquer coisa a polícia acaba nos restringindo. Reclamam do barulho, mas a festa é realizada em um local fechado. Os vizinhos se incomodam com os foguetes e acabam denunciando, mas nós sempre questionamos: e os foguetes tocados nas comemorações dos jogos do São Paulo, do Palmeiras? Na capital paulista compra-se tudo já pronto e em São Luís, manda-se matar o boi ainda para fazer as refeições. Em São Paulo, o evento acontece em maio, porque não é Pentecostes e nada é realizado durante o dia pois há uma grande movimentação na escola que fica em frente ao Espaço Cachuera!. Os mastros são somente pintados, não são enfeitados.

O Estado – E como é a recepção do público paulista?

Graça – Quando estamos tocando, todo o público de lá canta com a gente. Ficam todos na sala assistindo a festa, somos tratadas como deusas. As caixeiras cantando e as pessoas se emocionam, algumas choram e vem nos cumprimentar dizendo que receberam uma graça. É estranho, porque nos sentimos mais valorizadas em São Paulo do que em São Luís. Isso talvez aconteça porque São Paulo é uma cidade carente em manifestações da cultura popular e em São Luís, as pessoas já estão tão acostumadas com isso que nem dão mais importância. Falta aquela coisa “É nosso, por isso vamos valorizar mais”.

O Estado – Como acontece o curso de formação de caixeiras?

Graça – O curso é oferecido somente para mulheres a partir de 27 anos, para manter a tradição. No primeiro ano de curso, houve uma abertura para homens que trabalhavam com dança. Mas assim que eles chegavam e viram que todas as caixeiras eram mulheres, eles se envergonhavam e desistiam. Nós utilizamos uma apostila e explicamos tudo sobre a festa: o que é o mastro, a coroa, o império. Nós as ensinamos a fazer os rituais básicos da festa, como a Alvorada e a Alvoradinha. Na segunda semana, nós lhes ensinamos os toques que podem ser tocados em vários momentos da celebração. No geral, as tratamos como caixeiras, mas elas não podem receber esse título ainda. Nem nós nos consideramos! Para se tornar uma caixeira, precisa-se de tempo. Caixeira é aquela que sabe todos os versos e todos os toques perfeitamente. Eu considero a Dindinha uma caixeira, apesar de ela achar que ainda não está pronta para aceitar o título.

O Estado – Como vocês vêem esse reconhecimento? Há algum plano para o futuro?

Dindinha – É completamente gratificante. Nós chegamos a uma cidade imponente e grande como aquela e ver hoje gente ajudando a apoiar e divulgar nossa cultura. é um presente de Deus e do Divino. Nós ainda temos muita coisa para levar para lá. Queremos gravar um CD com as rezadeiras maranhenses, que já têm uma quantidade reduzida. Essa é uma cultura que já está se perdendo. Quero levar para São Paulo as ladainhas, os reis, o ritual de queimação de palhinha. Com o tempo, vamos transmitindo esse conhecimento. Duas pessoas já sabem rezar a ladainha de Santo Antonio e uma já sabe rezar a ladainha de São Pedro e já estão me cobrando para aprender a de Santa Luzia!

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