20/04/2024
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Defasagem de mão de obra volta ao nível de 1950

Brasileiro estuda em média 7 anos; nos EUA, são de 12 a 13 anos

Piora da produtividade em relação a americanos ajuda a explicar o resultado fraco do PIB

CLAUDIA ROLLIDE SÃO PAULOÁLVARO FAGUNDESEDITOR-ADJUNTO DE “MERCADO”Quatro trabalhadores brasileiros são necessários para atingir a mesma produtividade de um norte-americano.

A distância, que vem se acentuando e está próxima da do nível dos anos 1950, reflete o baixo nível educacional no Brasil, a falta de qualificação da mão de obra, os gargalos na infraestrutura e os poucos investimentos em inovação e tecnologia no país.
Fatores apontados por empresários e por quem estuda o assunto como os principais entraves para a produtividade crescer no país –e que também ajudam a explicar o desempenho fraco do PIB brasileiro nos últimos anos.

A comparação entre Brasil e EUA considera como indicador a produtividade do trabalho, uma medida de eficiência que significa quanto cada trabalhador contribui para o PIB de seu país.

O dado é do Conference Board, organização americana que reúne cerca de 1.200 empresas públicas e privadas de 60 países e pesquisadores.

Ele é importante porque mostra a força de fatores como educação e investimento em setores de ponta, que tornam mais eficiente o uso de recursos. A produtividade costuma ser menor nas empresas de trabalho intensivo.
O baixo nível educacional no Brasil é destacado pelo pesquisador Fernando Veloso, da FGV/Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), como um dos mais graves problemas para uma economia que precisa crescer e aumentar o padrão de vida da população.
“O brasileiro estuda em média sete anos, nem completa o ensino fundamental. Nos EUA, são de 12 a 13 anos, o que inclui uma etapa do ensino superior, sem mencionar a qualidade do ensino.”
A média de treinamento (qualificação) que um americano recebe varia de 120 a 140 horas ao ano. No Brasil, são 30 horas por ano, destaca Hugo Braga Tadeu, professor da Fundação Dom Cabral.
A produtividade brasileira deve cair neste ano ao menor nível desde 2006 na comparação com a do americano e se aproxima do nível da década de 1950, quando o estudo se iniciou. Em 1980, um brasileiro tinha produtividade equivalente a 40% da de um americano. Hoje, ela está em 24%.
“Voltamos ao patamar dos anos 1950, mesmo com os avanços tecnológicos que ocorreram em 65 anos”, afirma José Ricardo Roriz Coelho, diretor do departamento de competitividade da Fiesp.
A dificuldade de competir se acentua com a carga tributária maior, o juro alto para empréstimos, os riscos cambiais, os custos trabalhistas e os gargalos que encarecem a produção, diz o empresário.
A queda na produtividade é consequência do PIB fraco e de condições desfavoráveis, como maior inflação, que levam o setor produtivo a cancelar ou adiar investimentos.
A retração generalizada no consumo das famílias e na demanda de empresas e governos, além da piora na situação da indústria e dos serviços, foi mostrada na queda de 0,2% no PIB de janeiro a março, e a previsão é que o segundo trimestre seja pior.
MAIS DISTANTE
“O país vive uma crise de isolamento que só o distancia dos países e só se acentua”, afirma o economista Cláudio Frischtak, estudioso do tema produtividade.
O isolamento se traduz não só pelo ritmo lento de avanços dentro das fábricas, como processos de inovação, diz o economista, mas também no número baixo de acordos de livre-comércio com outros países (o que dificulta o acesso a bens e serviços, inclusive os de maior tecnologia).
Outro indicador desse distanciamento é a participação de estrangeiros no mercado de trabalho. “São professores, pesquisadores, técnicos e cientistas que enfrentam dificuldades burocráticas para exercer suas atividades no país. Com isso, o conhecimento deixa de circular.”

    Empresas também têm de olhar da porta para dentro

    DE SÃO PAULO

    Se, para melhorar os ganhos de produtividade, é preciso adotar medidas que aumentem a qualidade da educação, permitam ajustar o custo da mão de obra e resolvam gargalos nas estradas, nos portos e nos aeroportos, parte dos estudiosos considera que é preciso também olhar para medidas que devem ser tomadas da porta para dentro das empresas.
    “Não adianta só dizer que governo deveria investir mais em infraestrutura, que há transferência de mão de obra qualificada do setor industrial para o de serviços e que a força de trabalho está envelhecendo no país. Isso é sabido. O que se vê pouco debate é sobre como a produtividade deveria ser tratada dentro da empresa”, diz o professor Hugo Braga Tadeu, da Fundação Dom Cabral.
    Aperfeiçoar processos internos, prestar melhor serviço ao cliente (não só olhar para o produto fabricado) e competir com o mercado internacional são fatores que impulsionam a produtividade e forçam as empresas a buscar eficiência, explica.
    Empresas de médio e pequeno porte que participaram de um projeto da CNI para organizar a produção conseguiram aumentar em até 40% a produtividade, sem gastar em máquinas ou equipamentos, mas sim arrumando a linha de produção.
    “É como se a fábrica fosse uma cozinha. Mas a geladeira ficasse na sala, o fogão, na cozinha, e o lixo, no quarto. Quando se aproxima cada etapa e se arruma a casa, há ganho de tempo e eficiência”, afirma Renato Fonseca, gerente da CNI.
    Mas ele também destaca que existem medidas que não dependem só da gestão das empresas para aumentar ganhos de eficiência. “A legislação não permite, por exemplo, que o trabalhador mais produtivo ganhe mais. Seria uma forma de estimular quem produz mais e melhor.”
    Até a mobilidade urbana tem impacto na produtividade do trabalhador, diz Otto Nogami, professor do Insper.
    “Perder duas horas no ônibus para chegar à empresa afeta o desempenho e, portanto, a produtividade. Quantas vezes você ouve: ‘Já estou cansado e o trabalho nem começou’? A falta de infraestrutura não afeta só a empresa.”
    A queda na produtividade não preocupa o setor industrial, diz o economista Fabio Silveira, da consultoria GO Associados. “Se em 2014 o efeito foi maior na indústria, agora ele bate com intensidade e contamina o setor de serviços e comércio.”

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