27/02/2024

Devagar com o andor de São Pedro!

Por HERBERTH DE JESUS SANTOS (*)

Quem me conhece mais de perto, sabe que uma das minhas praias, em se tratando das nossas grandezas da Cultura, a Festa de São Pedro, na Madre de Deus, tem uma ascensão para lá de especial, pela lembrança que ela me traz da Minha Avó paterna Marcelina Cirila dos Santos (Marcela), zeladora da primeira capela, analfabeta de quatro costados, e com uma comunicação irrepreensível, na resolução de pendência sobre o Dia Maior do Pedro Santo.

Fosse na Capitania dos Portos (para falar, pessoalmente, com o comandante, sobre as embarcações que participariam da procissão marítima e a fiscalização por conta da marujada), no então 24.º BC, para a concessão, pelo Cel. do Exército, da banda musical, para animar a novena (nove noites de reza), no largo festivo, ou com o comandante da briosa PM, com aquele mesmo fim, no cortejo terrestre, e a pela Baía de São Marcos, de manhã ou de tarde de 29 de junho, de acordo com a maré.                                      

Verdade que ela sempre conduzia ofícios datilografados pelas alunas da Escola Normal, residentes na nossa vizinhança, e eu, lá alguma vez a acompanhando de calca curta, não sabia até que ponto ela falava o certo por linhas tortas, além de que, de cada falação dela, um feito exitoso para o Pedro Santo, que não sofria solução de continuidade. Se tive alguma mordomia na vida, foi beber, no amanhecer de São Pedro, mais cedo do que todo mundo, do seu delicioso mingau (de milho e de tapioca), com que ela, diariamente, ajudava no passadio da nossa casa, ao lado do templo do santo da nossa devoção, e, num banco da igrejinha, um lugar privilegiado para assistir aos bumba-bois.

Ela foi majestosa, quando falou, comigo ao lado, para a Minha Madrinha (Dedé) cuidar de mim, na Rua do Apicum, pois ela não podia mais lidar eu gazeando aulas, nas primeiras letras, tomando banho de maré, e tinha dado até uma pedrada no Padre Martinho, que me queria no catecismo, e Papai, na pescaria em alto-mar, e Mamãe, na tecelagem da Fábrica Santa Isabel (Fabril ). Meu Padrinho (Chiquito), Oficial de Justiça, quando chegou do TJ para almoçar, eu já recebia abraços dos meus irmãos de criação; o “Deixe Betinho comigo, D. Marcela, que eu quero ver se ele não estuda”! foi cumprido, na Escola-Modelo Benedito Leite, na minha aprovação ao acirrado Exame de Admissão ao Liceu, nos Vestibulares da UFMA ao Curso de Direito e ao de Comunicação (Jornalismo), e diversos prêmios literários. Minha Primeira Comunhão, na Igreja de São João, via Escola-Modelo. Numa Festa de São Pedro, eu já desasnado, Vovó Marcela pediu para eu ler sobre o evento, no O Imparcial e no Jornal Pequeno, na capela, perto da imagem do taumaturgo, quando me almejou jornalista, profissão com que me vali para auxiliar muito o Pedro Santo, além de um verso inesquecível: Eu fiz escola por ela/e lia o jornal pra nós três, no livro São Luís em PreAmar, com que fui considerado, pelo jornalista e compositor Cesar Teixeira, um dos maiores poetas maranhenses.                                                                                                                                      

Pois bem, sei como e posso, proximamente, melhorar muito a Festa de São Pedro, viabilizando o Largo para ser o maior e mais frequentado de São Luís, e não só em 28 e 29 de junho, subsidiando o Turismo, a procissão marítima a maior do Brasil, com uma baía superior à de Guajará, em Belém(PA), com centenas de embarcações, no Círio Fluvial de Nazaré.

No mesmo passo, trazer os pescadores para a Comissão Organizadora da Festança do Padroeiro deles, meus amigos de infância esquecidos pelas últimas Coordenações da Capela! Devagar com o andor de São Pedro, qual Minha Avó dizia aos devotados carregadores, seria, em outras palavras, mais ou menos tudo isso!

SÃO PEDRO COM MINHA AVÓ MARCELA              

Minha Avó tirava de letra, pois, mesmo analfabeta, em magia, para acordar o dia mais cedo, era Marcela, e, também, Luzia, em acender alegria e estrelas aos companheiros e aos filhos pescadores, com sua venda de mingau de todo o dia, antes de brilhar São Pedro e seus andores. Na Festa do Glorioso São Pedro, num tempo que ainda não foi, sabia de cor e salteado o segredo, no largo enfeitado pro Boi, qual zabumba que vinha distante: de Mizico, Medonho, ou Lorentino, dos quais, eu guardava o brilhante, caído do Boi e do brincante, para eu preservar seu destino, numa caixa de papel coração,                que cresceu mais que o menino e reluz no céu do seu chão. Minha Avó tinha cada ideia! Queria que eu fosse alguém na vida que é plateia e louva mais os que têm! Vovó cresceu minha infância em seu brilho de todo dia. Ser rico de luz, sua ânsia, com ouro de tolo, não via. Estou sujando a capela, São Pedro é a bola da vez: eu fiz escola por ela e lia o jornal pra nós três. Estou sujando a capela, São Pedro não estudava; a zeladora era ela, de mim e do santo cuidava. E disso eu fazia praça, satirizando o enredo e me lavava na graça, botando a culpa em São Pedro. Cara de santo eu fazia, mas Vovó conhecia cara de tambor que amanhecia, santo de casa e de arara:

 Nem “mais” nem meio “mais”, santo não tem “dô” de dente! Naquilo em que eu era capaz, faltava ao santo ser gente. Passa o tempo, marco passo, com a fronte erguida, porém, pois não corrompo o compasso da reta que a linha tem. Na lida, publico agora que deixam a justiça ao léu, e Vovó me crer nesta hora e bota ordem no céu.                Tem espaço para arrumar, no Alto, celeste ermida. Porque tem São Pedro, lá, e aqui, minha luta renhida, ralha, ali, com o Santo do Pedro, e com os meus santos, cá, contudo, nos sendo querida, entendendo-se a benquerença que há em:               “Que santos putos da vida!” Chegou sem pedir licença, não era a preta Irene do poeta maior pernambucano Manuel Bandeira, nem tratou “sua incelença”, “meu branco” nem abriu porteira. Era só para varrer o céu e para cuidá-lo tão cedo: ela, na Madre de Deus, já era assim com São Pedro!             

O melhor da Cultura Popular Maranhense perdeu, no dia 5.8.2013, aos 88 anos de idade, a figura importantíssima do folclorista Canuto Santos, brincante e dirigente do boi de zabumba e do tambor-de-crioula da Vila Passos, tendo seu corpo sido velado em sua residência, na Rua Castro Alves, 22, naquele bairro, para onde veio aos nove anos de idade, de Guimarães, e permaneceu, entre nós, no Parque da Saudade (Vinhais), desde a tarde do dia 6. Na noite da véspera desse São João, não foi visto, na Igreja de N.ª Sr.ª das Graças, recebendo bênção para iniciar a temporada, sendo representado por sua filha.

Mestre Canuto Santos, entusiasta do tambor de crioula e do Boi da Vila Passos.

               Conheci-o de vista, no meado da minha infância, ele, ao lado de Mizico (Raimundo Hemetério), dono e cabeceira do boi de zabumba bem-guarnecido da Vila Passos, como os de Lorentino (Laurentino, da Fé em Deus) e de Medônio, ao qual a soberana resolução popular passou a chamar de Medonho, no Matadouro (antes de ser bairro da Liberdade), e ficou. Todos eram chegados da minha casa paterna, na Madre de Deus, por ser a Minha Avó, Marcela, zeladora da primeira Capela de São Pedro, onde eu, no amanhecer da Festa do Padroeiro dos Pescadores —após deliciar-me com o mingau de milho e tapioca que ela preparava—, em pé, num banco de madeira, tinha uma posição privilegiada para ver aonde caíam as miçangas e canutilhos das vestimentas dos vaqueiros e dos couros dos mimosos, guardados por mim, nos meus cinco anos de idade, numa caixa de papelão, como se fossem brilhantes sem-fim, o meu primeiro presente de Natal. Tempos depois, li que aquele brilhoso todo fora invenção de Lorentino, cuja fama caiu na boca do povo, em alusão de que mulher muito emperiquitada e de vestido reluzente estava “Mais enfeitada do que o Boi de Lorentino”! Nunca fui meter a boia, na morte do seu galheiro, e escapei de estar em sua ferina toada, que errava sempre o português, nunca o alvo, que nem ele flagrou um seu vizinho da Fé em Deus: “Xô, xô, xô, urubu passo preto avoador,/pra brincá boi tu não veio,/pra cumê quem te chamou?!”

 

Leonardo, Seu Lauro, Antero Viana e Dona Zeca

No auge da minha adolescência, estudante do Liceu, e depois em cursos acadêmicos da UFMA (Direito e Comunicação Social-Jornalismo), eu não perdia uma festa dançante da morte do Boi da Vila Passos, mesmo sem privar do prestígio de Canuto Santos; eu tinha amizades e namoradas, na extensão do tempo, que facilitavam meu ingresso para o regabofe. Ganhei sua prazerosa consideração, no Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado (Sioge), na presidência do advogado e professor universitário Antônio José Muniz, em 1993, quando ele recebeu apreciável apoio, para as suas brincadeiras e promoções festivas, do diretor administrativo-financeiro da casa, Expedito Moraes, em forma de cartazes, entrando eu aí na parte que me competia: a revisão esmerada dos impressos; talvez o mecenas o favorecesse, igualmente, com uma joia (alguma quantia, para subsidiar suas manifestações folclóricas, e valia a pena!). Tendo-o à minha disposição amistosa, no Sioge, ele me ofereceu azulejos que eu não possuía à composição de um mosaico com alguns dos nossos maiores do folguedo.                                           

 Boi de Leonardo (da Liberdade) é de 1956, com 60 anos, em 2016 — Como Seu Lauro (Alauriano Campos Almeida) ficou sucessor de Medonho? Em cima da bucha, ele contou que Leonardo (Martins Santos), em 1955, era zabumbeiro do Boi de Medonho, e, numa divergência entre os dois, aquele saiu para fazer o seu próprio cordão, dito e feito no São João de 1956, com o Boi do Matadouro (mais tarde, da Liberdade, topônimo originado de uma consulta popular, ou plebiscito, em 1966, para a mudança do nome do bairro).                                    Entre minha namorada e um papo com Leonardo, em 1967 — Recordei que o plebiscito foi na gestão do prefeito Epitácio Cafeteira, quando eu paquerei uma aluna da Escola Normal, residente na Camboa, marcando encontro com bilhetes debaixo das carteiras do Liceu diurno, ambos no mesmo prédio, com a Normal no vespertino). Já em 1967, eu namorava uma liceísta, moradora na vizinhança de Leonardo, e estava numa festa dançante, no Clube de Jovens da Liberdade, eu, participante do Clube de Jovens da Madre de Deus, quando me chamou a atenção uma fogueira acesa, mais embaixo, na Rua Inglês de Souza, onde seria iniciado um ensaio de boi de zabumba. Pouco antes do guarnecer do cordão, conversei com o amo ou cabeceira do Boi da Liberdade, Leonardo, querendo entrar na meia-idade, denotado pelos cabelos já agrisalhando, eu tendo o cuidado de colocar na frente Meu Pai e Minha Avó, da amizade dele e, recentemente, falecidos, sendo ele conhecedor dos desenlaces.                                     Na Associação dos Bumba-Bois da Ilha (ABMI) — Retornei ao embalo dançarino da Jovem Guarda, depois de deixar minha garota em sua casa, na imediação, e com a garantia de um papo amistoso com o legendário folclorista, tempos depois, eu alicerçado em certo conhecimento, para as minhas matérias com ele para a publicação em jornal. Foi assim, quando eu, representante do Boi de Matraca da Madre de Deus, integrei a Associação dos Bumba-Bois da Ilha-ABMI, que ganhou do Governo do Estado, em 1996, o privilégio de gerenciar, em regime de comodato, o Parque do Folclore da Vila Palmeira (auxiliando grupos de todos os sotaques, inclusive com distribuição de barracas, no São João, para movimentarem com o intuito da venda de comidas e bebidas e ajudar nas despesas de cada qual), quanto nunca mais aconteceu.            

 

Os grandes fazem outros bois de zabumbaVoltando ao fio da meada com o inesquecível Canuto Santos, no Sioge: Seu Lauro foi num ano padrinho do boi, e, com a desistência de Medonho, numa rezinga familiar, este passou o cajado para aquele, que levou o grupo a ser Boi da Vila Ivar Saldanha, onde morava. Administrando, também, insatisfações, perdeu boieiros de peso quanto Antero Viana (de percussionista a Pai Francisco requisitado) e D. Zeca, que compuseram seus próprios conjuntos, respectivamente, Boi de Zabumba do Monte Castelo e Boi do Bairro de Fátima.                                                                                                             Nos ossos do ofício de repórter — Depois da extinção do Sioge, em 1997, era na Func(Fundação Municipal de Cultura) e na Secma (Secretaria Estadual da Cultura), ou nas pedras de cantaria da Praia Grande, que eu mais o encontrava, eu, dirigente do Boi da Madre de Deus e da ABMI, ou nos ossos do ofício de repórter. Não cansou de confidenciar-me o que seria uma apreensão diuturna dele (qual em Memória de Velhos, publicação valiosíssima da Secma), direcionada para o seu cultuado brinquedo: “Na minha ausência, não sei quem vai assumir! Têm vários descendentes de Mizico que nunca quiseram, e desde o início ´tavam com tudo na mão. Acho até que, quando eu parar, a brincadeira para!”                                                                                                                                                                         Um coração grandioso parou — O Mestre Canuto, com seu coração grandioso, internado no Socorrão I, na Rua do Passeio, parou no dia 5.8.2013! Ainda uma vez, a não concretização de um seu desejo: O primeiro, na juventude, botar Boi em Guimarães, onde nasceu a 19.1.1925, e ficado aqui por solicitação de Mizico; de outra feita, fazer a matança (auto do bumba-meu-boi, não o ritual da morte), no legendário povoado Guajeritiua, em sua querida terra vimarense. Oxalá que sua preocupação haja tido repercussão de benquerença na Secult, Secma e Comissão Maranhense de Folclore, para, em cima dos belos necrológios, chamarem seus descendentes e os de Mizico, a fim de que, fazendo até das tripas, coração, tocarem o Boi da Vila Passos para frente!                                                                        

 “A classe completa da religião!” — Li no jornal: “Fundado, em 1920, o Boi de Vila Passos já está na terceira geração, e hoje tem cerca de 60 integrantes. O foco das homenagens este ano será o emblemático Mestre Canuto, que morreu aos 89 anos, em agosto de 2013, legando à esposa Elza Santos o comando dos brincantes. Contavam 15 anos de casados, e Dona Elza ainda recorda emocionada a última toada que o Mestre, momentos antes de morrer, cantou para ela e a filha, ele que, por toda a vida, se dedicou às mais variadas atividades, da feitura dos chapéus e instrumentos à criação das toadas. Os familiares e a comunidade do bairro se uniram ainda mais à viúva do mestre para preservar a tradição, a qual inclui também rodas de tambor de crioula e tambor de mina, ou “a classe completa da religião”, como define Dona Elza.             

A presença do Seu Léo da Liberdade — Havia lido no jornal, antes: “Morre Leonardo, fundador do Bumba-boi da Liberdade. Leonardo Martins Santos, fundador do Boi da Liberdade (sotaque de zabumba), morreu ontem em São Luís, (24.7.2004), aos 83 anos. Ele sofreu uma parada cardiorespiratória, logo no início da manhã. Em razão de diversas complicações de saúde, ele estava afastado há mais de um ano do grupo que liderou durante 48 anos. De acordo com informações de familiares, o corpo de Seu Leonardo será sepultado na manhã de hoje, no Cemitério Parque Jardim da Paz, na MA-201, que dá acesso ao município de São José de Ribamar. Logo depois da confirmação da notícia da morte do amo do Boi da Liberdade, uma grande movimentação tomou conta da residência onde Seu Leonardo morava, na Rua Alberto de Oliveira, na Liberdade. Parentes, vizinhos, amigos, artistas e intelectuais e políticos foram ao velório, prestar homenagens ao grande batalhador da Cultura Popular do Maranhão. Natural de Guimarães, Leonardo nasceu no dia 6 de novembro de 1921. Aos 18 anos, ele veio para São Luís na companhia de um tio. Já iniciado no bumba-meu-boi, devido à tradição de sua terra natal, ele lutou até conseguir fundar, no Bairro da Liberdade, a manifestação que, igualmente, levou o seu nome e da qual foi amo por 48 anos.”

               

Chamada do Autor deste livro A Matemática, ciência exata, não deixa margem de dúvida: Leonardo, em 1956, saiu do Boi de Medonho, e criou o Boi do Matadouro (depois, da Liberdade), conforme ressaltou Canuto Santos. Quando pereceu, em 2004, estava com 48 anos na lida do cabeceira (amo): somando-se 1956 e 48, teremos 2004. Portanto, o Boi de Leonardo completou, agora, 60 anos, não 70, como apressados divulgam, sem a devida atenção.

INCENDIANDO O MARANHÃO COM EUFORIA: O MAIOR E MAIS BONITO FOLGUEDO JUNINO QUE O BRASIL E O MUNDO PRECISAM CONHECER

            De 23 de junho a julho adentro, a ordem de São João, na crença dos brincantes de bumba-bois mais fascinados, é cumprir suas promessas e incendiar o Maranhão de euforia. Como saudava o boieiro Leonardo (do Boi de zabumba da Liberdade), “É tempo de se ganhar mais irmãos”! – em alusão à chegada de figurantes para vadiarem na Capital. Aberta a temporada de brilho e beleza do maior folguedo do Estado: o bumba-meu-boi, em sua dimensão de magia e pujança; a eletricidade do tambor-de-crioula, quadrilhas, dança do coco, forró, e shows de artistas nativos. Com centenas de distrações (em dezenas de feitios), o Estado ostenta mais diversidade e grandeza juninas, no País, pena que este não sabe, pois carecemos de publicidade nacional mais forte, em que perdemos, no grito da TV Globo, a primazia para Campina Grande (PB), só com forró e quadrilhas organizadas.                                                                        Entre São Marçal e Av. João Pessoa — Com o batismo dos bois (de matraca, zabumba, Baixada, costa-de-mão e orquestra), os mais tradicionais na noite da véspera de São João, a festança começa nas ruas enfeitadas de bandeirolas e balões multicoloridos, nos arraiais de barracas, comidas e bebidas típicas e nos terreiros que fizeram chamada para as atrações darem o ar da sua graça. É alegria para todos os lados! No amanhecer de São Pedro (29.6.), os bumba vão pagar promessa no largo da capela do santo, na Madre de Deus, onde milhares de fiéis aguardam a procissão terrestre e a marítima do Padroeiro dos Pescadores. No raiar do outro dia (30), abençoados por São Marçal, os bois de matraca percorrem a histórica Av. João Pessoa (que desavisados, sem chamamento à razão, a não ser do Sotaque da Ilha, nossa coluna no JP Turismo/Jornal Pequeno, rebatizaram de São Marçal), no João Paulo, soterrando uma parte interessante da História do Brasil (ou seja, o homicídio do político João Pessoa, ex-governador da Paraíba e que passou a nomear a capital do Estado. No dia 26 de julho de 1930, ele foi assassinado por João Dantas, na Confeitaria Glória, no Recife (PE), segundo estudiosos, por questões de ordem pessoal e políticas. Sua morte foi o estopim para um movimento armado, no País, que mudou a estrutura política nacional, como  Revolução de 30, contra a posse do presidente eleito, que terminou com a deposição, em 24 de outubro de 1930, do presidente Washington Luís e a subida ao poder de Getúlio Vargas. Terminava assim a República Velha e começava a chamada Era Vargas. Sem ouvirem a Toada da História, mataram, novamente, João Pessoa, no João Paulo. São Marçal já estava um fato consumado e firme na memória, não necessitava de dar nome à avenida, e, sim, aos bois.)
A crença de emendando noites —- Dão um boi para entrar na briga, e uma manada, para não sair, “emendando as noites”, somente vencidos pelo sono e cansaço. Já no primeiro domingo de julho, os batalhões da Maioba, Pindoba, Maracanã, Iguaíba, Sítio do Apicum, da Matinha, etc., têm encontro marcado em São José do Ribamar (distante 36 km de São Luís), acordando os locais com saraivada de percussões e toadas, na Av. Gonçalves Dias (Rua Grande), quando, presentemente, o Boi do Outeiro (Ribamar de Matraca) abraça a todos. Depois, morrem, num domingo, com três dias de festa dançante e “comedoria”, em seus “viveiros”, entre os fins de julho a setembro, seguidos dos outros sotaques, até novembro.         

Quem já assuntou e botou reparo, fala de cadeira que os bumba-bois, como os de matraca, ou sotaque da Ilha, e os de zabumba, ou sotaque de Guimarães, de onde são originados, não nasceram sequer com o guarda-roupa que ostentam hoje, pois derivaram de um que ocorria, no Estado, diferenciando, um pouco, aqui e acolá, só na indumentária e dança. Sem esse cabedal, é jogar conversa fora da bacia, quanto achar que São Marçal, no João Paulo, é mais antigo que São Pedro, na Madre de Deus.                                                                        

 

Um só tipo: o boi primordial  até 1860 — Quem beber na fonte dos jornais do séc. 19, na Biblioteca Pública Benedito Leite, verificará que, até 1860, não existia boi de matraca nem de zabumba, ou outro estilo que conhecemos. Era o boi primordial, o pai da manada. Eram semelhantes em todas as regiões. Seria impossível mesmo que o Boi nascesse, entre nós, de uma vez, com: matraca, ou Sotaque da Ilha (fixados em São Luís, depois em Icatu, Paço do Lumiar, Ribamar, etc.), zabumba, ou de Guimarães, costa-de-mão, ou de Cururupu, da Baixada (Pindaré, Viana, Penalva, São João Batista, São Vicente de Férrerm etc.). Os brinquedos de orquestra só nos meados do séc.20: de Rosário, Axixá, Morros, Primeira Cruz, Humberto de Campos, Presidente Juscelino, Nina Rodrigues, Santa Rita, etc.         

           Matraca e caboclo-de-pena na Ilha: no jornal de 1868 – Com a proibição pela sociedade escravocrata, em 1861, os bois só retornaram no São João de 1868. Seu defensor, o jornalista João Domingos Pereira do Sacramento, em sua crônica no Semanário Maranhense, de 12.7.1868, assim abraçou, em São Luís, a chegada da matraca e do caboclo-de-pena ou real, no Boi, caracterizando, assim, o grupo indígena: “Introduziram na folgança do Boi, no São João deste ano, repinicados de matraca, no lugar de palmas com as mãos, e uns gritos que arrepiaram minha carne, como nunca se viu antes nas figuras do bumba”! Ali mesmo, criticou autoridades repressoras e abraçou a novidade: “Antes tarde do que nunca! Melhor com essa zoada toda do que o Maranhão passar sem o bumba, como foi de 1861 a 1867!

 Zabumba e tambor-de-fogo em Guimarães — Conforme o poeta e pesquisador Américo Azevedo Neto, na sua obra Bumba-meu-boi no Maranhão, no mesmo ano do surgimento das matracas e caboclos reais, nos Bois da Ilha (1868), precisamente, no povoado Jacarequara, então pertencente a Guimarães, Gregório Malheiros substituiu por zabumbas, e tambores-de-fogo ou tamborinhos, os pandeiros idênticos aos dos bois de matraca. A seguir, Damásio (há, em Guimarães, uma localidade e um boi com esse nome), com os novos instrumentos, aprimorou o sotaque, criando, dessa forma, o grupo africano, no futuro, com sua vestimenta cintilante.

Mãe Catirina e Pai Francisco bicentenários – Suas personagens centrais nasceram com a diversão: o “miolo” (quem dança sob a armação do boi), cantador, doutor, Pai Francisco e Mãe Catarina, que o povo popularizou Catirina, aliás, básicos no auto da matança, representada pela toada Urrou. Eternizaram-se no Semanário Maranhense, de 12.7.1868, no texto assinado pelo entusiasta Sacramento: “Não encontrei na folgança deste ano de 1868 a graça da antiga tagarelice desconchavada do doutor Pisa-Macio, do aparvalhado ridículo Pai Francisco, nem nos requebros da Mãe Catarina”. Considerou que os caricatos, que ressurgiriam em outros junhos, tiveram seu retraimento ocasionado pelos sete anos em que o Boi ficou proibido: “Podemos justificar isso, na falta do uso de brincar. Se a memória não falha ao cronista, na última vez que o Boi brincou foi na chefatura policial do Dr. Manuel Faria, e voltou, agora, em 1868, na do Dr. Morato.”         

 

                          Notícia do brinquedo, no raiar do séc. 19 — Os escravagistas nunca compuseram vida mansa ao Boi, intolerância de antes do surgimento da Imprensa, no Maranhão, com O Conciliador do Maranhão (15.4.1821). No seu título Mídia e Experiência Estética na Cultura Popular, a jornalista, professora, mestra e doutora de Comunicação da UFMA e antiga vaqueira campeadora do Boi (de orquestra) de Morros, Esther Marques confirmou: “O Boi aparece diante dos periódicos como um folguedo agressivo, barulhento e agitador da ordem e da moral. Mas,  principalmente, uma brincadeira de negros, passível de punições e proibições, desde 1814, pela polícia”. E seria assim —como o redator aqui analisou—, até que o império precisasse da negrada, na Guerra do Paraguai (1864-70), dando uma folga na perseguição. Ficou na cara, a volta do brinquedo, qual um prêmio de consolação aos negros, que lutaram no conflito e que, com os brancos pobres, vadiavam no bumba, em junho.         

                                     Pedro Santo, na Madre de Deus, vem de 1940 – Para sair do dito de “Em casa de ferreiro, o espeto é de pau”, em 27.6.2007, reuni parentes e amigos mais velhos, na capela, para unificarmos a origem da Festa de São Pedro, na Madre de Deus, pois a cada ano saía uma versão nos jornais: “Mais de 100 anos”, “90 anos”, etc. Ali, Francisca Batista Soares dos Santos (D. Chica, de 78 anos, então) assegurou que se originou em 1940, na Madre de Deus, em cuja praia havia mais pescadores, quanto seu marido, Filomeno dos Santos. O pescador aposentado José Raimundo Carvalho (o Zé de Zuleide, ali, com 102 anos) lembrou que, de 1940 a 1948, já com bumba-bois no amanhecer de São Pedro, a capela era de taipa e palha, surgindo a de alvenaria e telha, em 1949, ajudada pelo político e industrial Cesar Aboud, dono da Fábrica Santa Isabel (Fabril, de tecelagem). “A festa já tinha rezas, em novena”! – rememorou Isabel dos Santos Rodrigues (Bela, com 74 anos). João Batista dos Santos (77) e Gervásio Gomes dos Santos (74), que nem Bela, meus primos mais velhos, assinalaram que, em 1945, o comunitário João de Roque criou a comissão organizadora, com que a tradição, já com as procissões marítima e terrestre, ganhou leilão de prendas e os fogos mais bonitos, inclusive, com a imagem do Pedro Santo.         

                                             São Marçal, mais novo no João Paulo, que o dito — Após um exaustivo levantamento, nos periódicos da Biblioteca Benedito Leite, posso falar de cátedra que a passagem dos bois de matraca, no João Paulo, não possui os mais de 80 anos que falam, pelos cotovelos, desde 2007. Tenho material para um livro, menor que o de São Pedro, não menos importante, sem invencionice. Começou em 1973, consoante informou, para eu fazer uma ampla Reportagem sobre o tema, um dos criadores da passagem, o cantador Humberto de Maracanã, testemunhado por Mané Onça, cantador do Boi da Madre de Deus, em que, ali, eu era matraqueiro da brincadeira famosa e repórter da Rádio Educadora. Em 2018, em seu programa Canta, Maranhão!, na Rádio Difusora, ao lado do jornalista Joel Jacintho e do radialistaJuarez Sousa, a radialista Helena Leite (falecida em 30 de março de 2019) levantou a questão para mim, que confirmei o dito de Humberto para a Reportagem minha, editor-geral do jornal Diário do Norte, em 1987, o que foi confirmado, na entrevista de Helena Leite, na mesma ocasião da minha fala, por um morador do João Paulo que, em 1973, era recruta do Exército, no então 24.º BC, colocando um fim na polêmica de que a passagem dos bois da Ilha, Dia de São Marçal, no João Paulo, era com o exagero de mais de 80 anos.

          O BOI QUE NASCEU PRIMEIRO, NO MARANHÃO?                           SÓ SABEMOS “QUE DEVE TER SIDO DE NOITE!”

         Ninguém, em sã consciência, pode dizer que foi este ou aquele que nasceu primeiro: de zabumba, ou sotaque de Guimarães, de matraca, ou sotaque da Ilha, costa-de-mão, ou de Cururupu, ou da Baixada; orquestra é o mais novo de todos, no meado do século 20. Podemos afirmar que a Festança de São Pedro, na Madre de Deus, é muito mais antiga que a passagem dos bois de São Marçal, no João Paulo. Salve a prudência de um preto velho entrevistado por Américo Azevedo, quando perguntado sobre o surgimento do boi, publicada em Bumba-meu-boi no Maranhão: “João Chibata, negro de uns 85 anos e morador de um lugar chamado Centrinho, respondeu, sorrindo, quando da pergunta: João, na tua ideia, quando apareceu o Bumba-meu-boi? — Não sei, Seu Américo (e foi aí que sorriu), mas deve ter sido de noite!”

 Cuidado pelo boi de zabumba – Por ser escolado nessa matéria desde a infância, e há algum tempo percebendo brechas que se alastram num crescendo, nas fileiras da brincadeira, assim que tive contato com o legendário boieiro Basílio Durans, fui direto ao ponto, ao telefone, perguntando se havia mais grupos, com o aumento do interesse dos mais jovens em fortalecer as guarnições, em louvação a São João, e sua resposta foi preocupante em demasia: “Ficaram mais fracos ou reduzidos, em algumas partes!”                                                                                                             Encerrei a entrevista, com Basílio Durans, ali, com a cancha de que o reggae estrangeiro (com uma brutal propaganda nos meios de comunicação indígena) perpetra o massacre da genuína Cultura Maranhense. Agora, a jogada é colocar, na mídia, que o ritmo jamaicano, para ter sua consolidação na preferência popular, no Maranhão, sofreu a penalização do racismo, depois que não colou que os negros maranhenses eram descendentes de jamaicanos, por sermos, com muito orgulho, dos africanos, e não deixamos daqui que a ignorância prosperasse. Já estamos esperando a manifestação competente e aliada de órgãos oficiais de Cultura, professores, comunicadores sérios, intelectuais, e gregos e troianos, pois o bicho está pegando, e o gargalo, contra as criações da nossa mais importante manifestação folclórica, é para lá de muito grande e nocivo!     

 Sobre Basílio DuransBasílio Durans criou o Festival do Bumba-meu-Boi de Zabumba que, desde 1994, em julho, acontece todos os anos em São Luís. Por conta desse trabalho, ele foi um dos vencedores da 29ª edição do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), na Categoria I – Iniciativas de excelência em técnicas de preservação e salvaguarda do Patrimônio Cultural. Além de levar às ruas este saber popular e estas tradições, o festival procura fórmulas para transmitir o conhecimento com foco, principalmente, nos jovens.                                                      

25.ª TOMADA DE MONTE CASTELO: Alusivo a que o antigo Bairro Areal, em São Luís, foi rebatizado com o nome atual em comemoração à Tomada de Monte Castelo, em 21.2.1945. A Batalha de Monte Castelo foi travada perto do final da 2.ª Guerra Mundial, quando os heroicos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), após fracassadas tentativas das tropas aliadas, lideradas  pelos EUA, no conflito,  derrotaram as forças do exército alemão, que impediam avanço dos inimigos no Norte da Itália.                                                                                  Em uma verdadeira batalha, pela Cultura Popular Maranhense, os brincantes do longevo sotaque realizam desde 1994, em julho, na Av. Newton Mello (Bairro Monte Castelo), em São Luís, o Festival do Bumba-Boi de Zabumba.

(*) Escritor, Compositor e Jornalista 

 

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