“Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. Com apenas sete palavras, publicadas em 1959 no livro “Obras completas (e outro contos)”, o guatemalteco Augusto Monterroso criou um dos textos mais célebres da literatura latino-americana. Não há explicação, não há desfecho, não há moral. Apenas o espanto puro, o suspenso. Esse microconto clássico é uma das melhores demonstrações do que o gênero pode fazer: dizer muito com quase nada, deixando um silêncio perturbador.
Ao lado dele, outros pequenos clássicos mostram a mesma força. Ernest Hemingway escreveu o lacônico “Vendem-se sapatos de bebês, nunca usados”. Já a “dama da literatura brasileira”, Lygia Fagundes Telles, entregou “Fui me confessar ao mar. O que ele disse? Nada”.
É exatamente esse silêncio do dinossauro, do sapatinho e do mar que definem o microconto. O texto não é curto por economia ou preguiça. Trata-se de uma operação literária de alta precisão condensando conflito, emoção e sentido em um espaço tão apertado que o texto parece prestes a transbordar… ou evaporar.
Rauer Ribeiro Rodrigues, professor de Literatura Brasileira, doutor em Estudos Literários e organizador da antologia “Micros-Beagá”, descreve o gênero como “uma narrativa ficcional muito curta, até 333 caracteres com espaços, na qual o título frequentemente integra e amplia o enredo, gerando sentidos por ecos culturais e intertextualidades antropofágicas”.
Mais importante do que o tamanho é a autonomia que o gênero conquistou. Ele dialoga com o conto, com a poesia, com o aforismo e com as artes em geral, capturando a fragmentação do nosso tempo com uma densidade que formas literárias mais longas nem sempre alcançam.
Não se trata apenas de escrever pouco, “mas de condensar sentido, tensão e efeito em um espaço extremamente limitado”, complementa o editor-chefe da Casa Brasileira de Livros, Cândido Luís Vasques. Segundo ele, o formato opera com precisão cirúrgica, valendo-se de sugestão, elipse (figura de linguagem que consiste na omissão intencional de um termo que pode ser facilmente subentendido pelo contexto) e economia expressiva.
“Um microconto excelente, memorável, é aquele que consegue ultrapassar sua própria extensão, que permanece no leitor, que reverbera para além das palavras escritas. Quando acerta, o texto ultrapassa sua própria extensão e continua na mente do leitor muito depois de lido”, ressalta Vasques.
Já o jornalista e contista José Rezende Jr., autor de “Estórias Mínimas”, recorre a uma imagem mineira forte para explicar o processo criativo. Ele conta que, certa vez, perguntaram ao escultor Geraldo Teles de Oliveira, conhecido como GTO (1913-1990), como ele conseguia transformar um pedaço de madeira em girafa. “Uai, é fácil. Eu tiro fora tudo o que não é girafa”, ele respondeu. Escrever um microconto, diz Rezende, é exatamente isso, uma arte de subtração absoluta. “Deixar de fora tudo o que não é o microconto. Contar só a essência da história, que às vezes não tem começo, às vezes não tem fim”, explica o jornalista, que é vencedor do Prêmio Jabuti 2010 ma categoria Contos e Crônicas com o livro “Eu Perguntei Pro Velho Se Ele Queria Morrer (E Outras Estórias De Amor)”.
Essa concisão radical é ao mesmo tempo o maior desafio e a maior liberdade do gênero, como defende o escritor mineiro Ronaldo Guimarães, professor e pedagogo, autor de dez livros e contemplado com o Prêmio Aldir Blanc com “Contos de Réis”. “Dizer em poucas palavras o que seria dito em páginas; essa elipse, aquele flagrante preciso”. Ele destaca que a maior delícia está em buscar o único conflito possível, marcado pela intensidade e pelo clímax instantâneo.
Para o escritor Marcelino Freire, que em 2004 organizou a antologia “Os cem menores contos brasileiros do século”, o microconto é, por definição, “coisa de uma linha e meia, não mais”. “A concisão sempre foi busca antiga de qualquer escritor que se preze”, exclama o autor de “Contos Negreiros”, que recebeu o Prêmio Jabuti em 2006 na categoria Contos e Crônicas.
O papel do leitor
No microconto, o silêncio fala tanto quanto as palavras. Diferentemente do conto tradicional, onde o autor tem espaço para guiar o leitor, aqui a trama muitas vezes se completa fora do texto, no imaginário, na memória ou na sensibilidade de quem lê. “É quando não entra e não sai mais nada na história. O milagre aconteceu. Quem tem que completar a história é o leitor. O leitor é coautor da micronarrativa”, afirma Freire.
Embora possa parecer simples, o microconto carrega alta densidade semântica. Nem sempre é uma leitura “segura” para iniciantes, observa Cândido Luís Vasques. A escritora Branca Maria de Paula, mineira de Aimorés, participante da antologia “Micros-Beagá”, vê nesse pacto uma das belezas do gênero. “A clareza que te obriga a não rebuscar, a atingir o alvo com absoluta assertividade. E, ao mesmo tempo, não falar tudo. Deixar reverberando indefinidamente”.
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