19/04/2024
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HISTÓRICA, SÃO LUÍS VIVE UMA DECADÊNCIA

Lista de intelectuais maranhenses inclui Cândido Mendes, Aluísio de Azevedo, Gonçalves Dias e Graça Aranha

Berço de alguns dos maiores sábios brasileiros, o Maranhão é hoje um dos Estados mais pobres do país

SILVIO CIOFFI
EDITOR DE TURISMO

A lista de intelectuais ligados a São Luís espelha sua importância cultural. A cidade, que hoje faz 399 anos, foi referência na formação de Candido Mendes de Almeida, jurista, historiador e geógrafo que publicou o “Atlas do Império do Brasil” (1868); de Aluísio de Azevedo, autor de “O Mulato” (1881) e de “O Cortiço” (1890); de Graça Aranha, a quem devemos “Canaã” (1902); e de Gonçalves Dias, poeta que publicou “Canção do Exílio” (1843) e um dicionário de língua tupi (1858).
A única cidade do país fundada por franceses, em 8 de setembro de 1612, foi, ao longo do tempo, invadida por holandeses e retomada pelos portugueses. Foi ainda ameaçada por Thomas Cochrane (1777-1860), o lobo-do-mar britânico que formou a Armada Imperial Brasileira e, depois, ajudou os independentistas na luta contra os lusos.
Estratégica, entre as regiões Norte e Nordeste, a capital onde vivem 1.027.098 pessoas (em 2010, segundo o IBGE) deve o nome à homenagem que os franceses fizeram a Luís 9o, patrono da França e chamado de são Luís, um monarca cujo reinado resultou numa era de conquistas.
Antes dos invasores franceses, eram os tupinambás que habitavam o local onde São Luís seria edificada. Mas os relatos são inexatos quando estimam entre 200 e 600 os índios que viviam na aldeia de Upaon-Açu à época dessa primeira ocupação.
A tentativa de colonização da região pela coroa portuguesa data de 1535, à época das capitanias hereditárias.
Nos anos 1550, malogrou a tentativa de fundar a cidade de Nazaré ­-insucesso creditado à ferocidade dos índios e à dificuldade de acesso.

A “FRANÇA EQUINOCIAL”

E foi só em 1612 que Daniel de La Touche, o senhor de La Ravardière, ali se estabeleceu com 500 homens para fundar a França Equinocial a mando do rei francês Luís 13. Os franceses logo se aliaram aos índios contra os lusos que vinham do Pernambuco.
Três anos depois, as tropas portuguesas tomaram a região e, em 1620, Jerônimo de Albuquerque foi nomeado comandante de São Luís.
Com a chegada de açorianos, prosperaram a plantação de cana e a produção de açúcar e de cachaça. Os índios, que já não eram considerados uma ameaça, foram usados na lavoura.

Em 1641, foi a vez dos holandeses tomarem São Luís com uma esquadra de 18 naus guarnecida por 2.500 homens que a saquearam (nessa época, eles já dominavam Salvador, Recife e Olinda).
O governador foi feito refém numa cidade cujo porto também escoava outros produtos como tabaco, algodão, couro e farinha de mandioca. Os portugueses expulsaram o invasor em 1642, mas as batalhas e emboscadas duraram até 1644.

A região encontrou paz e prosperidade em 1682, plantando o cacau ao lado da cana-de-açúcar e do tabaco, produtos então produzidos por escravos negros -e que eram exportados para Portugal, à qual a cidade esteve ligada por laços de sangue e por conta da proximidade do continente europeu.
Nem sempre pacífica, a situação deteriorou na Revolta de Beckman, a primeira que opôs colonos e portugueses.

Em 1755, a fundação da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará transforma o porto de São Luís. Também é no período pombalino em Portugal, de 1755 a 1777, que a capital do Maranhão constrói redes de água e esgoto.
A Guerra de Independência nos EUA (1775-1783) atinge a produção algodoeira por lá e abre brecha para exportações ao Reino Unido. A prosperidade econômica faz surgir, em 1780, a praça do Comércio, onde mercadorias europeias eram negociadas num tempo em que, avessa aos comandos do Rio, São Luís, mais ligada a Lisboa, era a terceira mais populosa cidade, atrás do Rio e de Salvador.

Abandono é ruga na rica história da capital

DO EDITOR DE TURISMO

Em 1823, a integridade de São Luís como capital provincial foi posta em xeque pelo almirante escocês Thomas Cochrane, que bloqueou o acesso por mar e ameaçou a cidade de bombardeio, forçando São Luís a reconhecer a Independência do Brasil, promulgada no ano anterior.
A renovação das lavouras algodoeiras nos EUA e a abolição da escravatura em diversos países, inclusive no Brasil -o último país a fazê-lo, em 1888- impactou a produção têxtil maranhense.
Já a produção intelectual dessa época, a julgar pelos sábios locais (veja infográfico ao lado), pôs o Maranhão na vanguarda brasileira.
Mas, isolada, a capital maranhense entrou no século 20 em declínio econômico. Só nos anos 1960, com a construção dos portos de Itaqui e Ponta da Madeira e também, da estrada de ferro Carajás, reorganizou sua economia.
Com uma geografia vocacionada para o turismo, 640 km de costas (atrás só da Bahia), o Maranhão é, a despeito da sua história, um dos Estados mais pobres do país.
Tem cinco polos turísticos bem delimitados: São Luís e a ilha de Upaon-Açu; o parque nacional de Lençóis Maranhenses; o Delta do Parnaíba; o polo da Floresta dos Guarás; e o parque nacional da Chapada das Mesas.
E tem dois padrinhos políticos, o ministro do Turismo Pedro Novais e o presidente do Senado José Sarney, ambos maranhenses. Mas, a julgar pela reportagem sobre a decadência do centro de São Luís, constatada pela Folha, terá que driblar o abandono a tempo de comemorar seus 400 anos. (SILVIO CIOFFI)

FOCO

Mesmo cansativa, ida aos Lençóis Maranhenses encerra beleza única

Lagoas cristalinas e praias de areia branca esperam viajante disposto a enfrentar quatro horas em estrada precária; os sobrevoos estão proibidos desde o ano passado

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Distante 272 km de São Luís, Barreirinhas é a porta de entrada para os Lençóis Maranhenses. Cidade de 55 mil habitantes, possui várias opções de pousadas -e até dois resorts para quem quiser desfrutar um maior conforto.
A viagem segue a linha de “devoção” exigida do turista que vai a São Luís: uma vez que os voos em aviões de pequeno porte passaram a ser proibidos em fevereiro de 2010, o visitante só consegue chegar a Barreirinhas por via terrestre, num trajeto de quatro horas em estrada precária.
Com a proibição dos sobrevoos por inexistência de pistas de pouso regulares, a rede hoteleira da cidade vem acumulando prejuízos.
“Barreirinhas tem um aeroporto provisório quase pronto, que precisa de um investimento de menos de R$ 100 mil para ter licença de operação, mas São Luís quer construir um mega-aeroporto de R$ 7 milhões e alega que o aeroporto daqui inviabilizaria o de lá. Aí, não fazem nem lá, nem cá”, comenta Sergio Doria, proprietário do resort Porto Preguiças.
O empresário vem tentando, em vão, sensibilizar as autoridades quanto à importância de uma pista de pouso na cidade. “Vivo há dez anos no Maranhão e nunca vi um projeto ser concluído. É mais fácil pousar uma nave espacial do que um avião internacional nesse mega-aeroporto.”
A impossibilidade de se fazer a viagem de avião é só um dos problemas enfrentados pelo turista disposto a conhecer essa paisagem única no mundo, composta por dunas de areia branca e 10 mil lagoas sazonais de água cristalina.
O acesso aos Lençóis é feito em veículos 4×4 que carecem de manutenção -e com frequência se veem grupos de turistas parados no meio da trilha, esperando resgate.
Com sinal de satélite fraco, quase não há pousadas com internet, celular raramente pega e, volta e meia, as máquinas de cartão de crédito param de funcionar.
Só há uma agência bancária, do Banco do Brasil, e nenhum caixa eletrônico 24 horas -assim, saque dinheiro antes de sair de São Luís.
Alheio aos obstáculos impostos a quem vem contemplá-lo, o parque dos Lençóis Maranhenses continua belíssimo. Há dois circuitos de visita às lagoas, que ficam cheias até meados de setembro: o da lagoa Bonita e o da lagoa Azul. Se tiver pique, conheça ambos.
Não deixe de fazer o passeio pelo rio Preguiças, que ganhou o nome graças à lentidão de sua correnteza e aos animais que outrora habitaram suas margens.
Um barco pequeno chamado voadeira percorre 30 km de águas calmas, margeadas por vários tipos de mangues, parando no povoado de Mandacaru e nas praias de Vassouras e Caburé. Com um pouco de silêncio e um bocado de sorte, dá até para avistar jacarés. (CAROLINA COSTA)

OUTRO LADO

“Investimentos em turismo crescem”

Secretaria Municipal de Turismo afirma que verba do governo na cidade não chega perto à de grandes capitais

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Procurada pela Folha, a Secretaria Municipal de Turismo de São Luís não quis divulgar a verba destinada aos projetos deste ano.
“Prefiro não comentar sobre valores, mas afirmo que são maiores que os do ano passado e vêm aumentando gradativamente”, diz o secretário municipal de turismo da capital maranhense, Liviomar Macatrão Pires Costa.
De acordo com Costa, o investimento do governo no que diz respeito ao turismo da região ainda não chega perto de grandes capitais turísticas, como Fortaleza (CE).
Ele ressalta, entretanto, que “as parcerias com entidades privadas, ‘trade’ turístico [conjunto que abrange a indústria do setor] e Ministério do Turismo vêm fazendo a diferença para o crescimento turístico da capital”.

FUTURO

Quanto a projetos de revitalização do centro histórico, o secretário destaca a Aliança pelo Centro Histórico, que “monitora e realiza serviços urbanísticos, culturais, funcionais e sociais” em 24 ruas da região.
Ele explica que a pasta vem trabalhando em uma ação de mobilização dos moradores que habitam o centro e também os comerciantes que trabalham no local.
“Aumentamos a coleta de lixo das vias, temos garis que trabalham especificamente no local, aguardamos a liberação do Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] para fixação de lixeiras estilizadas e, em breve, teremos caminhões próprios para as ruas”, diz.
Outro projeto, o Cores de São Luís, teria como objetivo restaurar a feira da Praia Grande, considerada o segundo ponto mais visitado na capital do Maranhão. “Além disso, temos uma limpeza especial de alta pressão nos monumentos, vias, ruas, praças e escadarias.”
Quanto às comemorações dos 400 anos da cidade, a serem realizadas em 2012, um comitê estratégico organizador já foi montado.
Foram definidas quatro frentes de trabalho: marketing, infraestrutura, eventos culturais e educação, cultura, ciência e tecnologia.
De efetivo, até o momento, só foi realizada uma votação popular para escolher o logotipo da festa, que estampará informativos, medalhas e, também, brindes.
(CAROLINA COSTA)
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Para Unesco, sanar deterioração é uma questão complexa

Segundo coordenadora de cultura da representação do órgão no país, recuperação das casas não é suficiente

Ecoando o Iphan e o MP do Estado, Jurema Machado afirma que só programa habitacional resolveria o problema

MARINA DELLA VALLE
DE SÃO PAULO

A representação da Unesco no Brasil, a superintendência do Iphan no Maranhão e o Ministério Público do Estado concordam em um ponto: só restaurar o casario tombado no centro histórico de São Luís não resolve o problema da degradação da área.
“O que todo mundo percebe de imediato é que é preciso restaurar os casarões. Mas ninguém pergunta o que vai ter lá dentro, ou seja, a questão do uso daquela área e da função dela dentro do conjunto da cidade”, diz Jurema Machado, coordenadora de cultura da representação da Unesco no Brasil.
“O que acontece no centro de São Luís é que há grandes áreas à margem do processo de desenvolvimento”, afirma.
A destinação da área, diz Machado, vai além da atuação dos órgãos de patrimônio. “Se a área vai ter novas habitações, comércio, isso é uma decisão a ser tomada pela prefeitura local, com a cooperação do Estado, num conjunto de forças”, afirma.
“É essencial que exista um programa habitacional voltado para o centro que traga de novo moradores para essa parte da cidade. O que dá a vitalidade e garante a conservação sustentável das áreas é a presença de moradias”, completa.
A um ano da celebração dos 400 anos da fundação da cidade pelos franceses, a questão do centro histórico de São Luís coincide com o monitoramento periódico da Unesco envolvendo a América Latina e o Caribe.
Nesses períodos, os países enviam relatórios sobre suas áreas listadas. “Foi enviada uma comunicação à Unesco pedindo atenção especial ao centro de São Luís nessa fase”, diz Machado.
A ausência de políticas públicas municipais que incentivem o uso habitacional do centro histórico da cidade é a conclusão do Ministério Público do Estado do Maranhão, que conduziu um monitoramento de 72 imóveis de uma rua tombada pelo Estado em 2007 e 2011.
Nesse período, o número de casarões em bom estado de conservação caiu de 56 para 54. Os imóveis em desabamento parcial foram de três para cinco. Já o número de casarões habitados subiu de 47 para 51, ponto positivo.
“Houve uma audiência pública para apresentar esse resultado. A causa principal da degradação dessa área é a falta de políticas públicas que estimulem moradia”, diz o promotor Luis Fernando Cabral Barreto Júnior, coordenador do Centro de Apoio Operacional de Meio Ambiente, Urbanismo e Patrimônio Cultural do Ministério Público do Estado do Maranhão.
A Superintendência Estadual do Iphan no Maranhão confirma o diagnóstico. “Apesar da centralidade, os donos não investem nos imóveis, muitas vezes por questões de heranças, inventários”, afirma Kátia Bogéa, superintendente do Iphan no Estado.
“Os casarões ficam fechados, são invadidos, não há investimento na habitação, a área vai se marginalizando. É uma questão complexa que depende de políticas públicas”, completa.
São Luís é uma das 173 cidades dentro do chamado PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) das Cidades Históricas.
“Foram listadas 68 ações no plano. Cinco já estão ocorrendo, entre elas o plano de mobilidade e de acessibilidade urbana na área central”, afirma Bogéa.

PACOTES PARA SÃO LUÍS E REGIÃO

PREÇO POR PESSOA EM QUARTO DUPLO

R$ 630
Pacote para três noites no hotel Abbeville, com café da manhã e passagem aérea. O valor da viagem não inclui extras e passeios. Na Americanas Viagens: 4003-4313; www.viagens.americanas.com.br.

R$ 660
Três noites no Litorânea Praia Hotel, com café e passagem aérea. Na Submarino Viagens: 4003-9888; www.submarinoviagens.com.br.

R$ 660
Três noites no hotel Praia Ponta D’Areia, com passagem aérea e café da manhã. Na Shoptime Viagens: 4003-4323; viagens.shoptime.com.br.

R$ 920
Quatro noites no hotel Praia Ponta D’Areia, com aéreo. Não inclui alimentação. Na Decolar: 4003-9444; www.decolar.com.

R$ 1.098
Quatro noites no hotel Expresso 21, com café, aéreo e traslados. Na Viajanet: 4003-2523; www.viajanet.com.br.

R$ 1.348
Sete noites no hotel Expresso 21, com café, passeio e aéreo. Na CVC: 0/xx/11/2191-8410; cvc.com.br.

R$ 1.428
Quatro noites, sendo duas em São Luís (hotel Praia Bella) e duas em Barreirinhas, nos Lençóis Maranhenses, na pousada do Rio. Inclui aéreo, café e passeios. Na Visual: 0/xx/11/3235-2000; www.visualturismo.com.br.

R$ 1.470
Quatro noites no hotel Solare Bellagio, com café da manhã, passeios e aéreo. Na Flot: 0/xx/11/4504-4544; flot.com.br.

R$ 1.483
Sete noites no hotel Brisamar. Inclui café da manhã, aéreo e passeio pela cidade. Há traslados e bolsa de viagem. Na Top Brasil Turismo: 0/xx/11/3926-8000; www.topbrasiltur.com.br.

R$ 1.736
Seis noites de hospedagem no Gran Solare, com café da manhã e aéreo. Pacote inclui passeios de Toyota até os Grandes Lençóis, de lancha pelo rio Preguiça e city tour em São Luís. Na Pomptur:
0/xx/11/2144-0432;
www.pomptur.com.br.

R$ 1.760
Sete noites de hospedagem no hotel Brisamar. Pacote inclui café da manhã, passagens aéreas e passeios pela cidade. Na Intravel: 0/xx/11/3206-9000; www.intravel.com.br.

R$ 2.300
Sete noites de hospedagem, sendo três na capital maranhense (no hotel Bellagio) e quatro em Barreirinhas, nos Lençóis Maranhenses (pousada Burity). Com café da manhã e passeio pelo centro histórico de São Luís, dentre outros. Não inclui aéreo. Na Ambiental: 0/xx/11/3818-4600;
www.ambiental.tur.br.

R$ 2.485
Quatro noites de hospedagem, sendo uma em São Luís (hotel Bellagio) e três em Barreirinhas (resort Lençóis Maranhenses). Inclui café, aéreo e passeios. Na Monark: 0/xx/11/3235-4322; monark.tur.br.

R$ 3.980
Sete noites de hospedagem no hotel Pestana, com passagens aéreas, café e passeios pela cidade. Na Tereza Ferrari Viagens: 0/xx/11/3021-1699; terezaferrariviagens.com.br.

R$ 4.928
Oito noites, sendo duas em São Luís (hotel Brisamar), duas em Barreirinhas, nos Lençóis Maranhenses (hotel Rio), uma em Santo Amato (hotel Água Doce), uma em Caburé (hotel Porto Buriti), uma em Tutoia (hotel Jagatá) e uma em Parnaíba (hotel Delta Park). Inclui café da manhã, traslados e passagens aéreas. Na Freeway: 0/xx/11/5088-0999;
www.freeway.tur.br.

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