24/02/2024

Livro ‘Unidos da democracia’, de Guilherme Guaral, retrata desfiles no período da redemocratização

Versos como “Quero que meu amanhã seja um hoje bem melhor, uma juventude sã, com ar puro ao redor”, do samba-enredo que o Império Serrano levou para a Marquês de Sapucaí em 1986, parecem ter sido escritos na semana passada, dada a atualidade da obra dos compositores Aluisio Machado, Luiz Carlos do Cavaco e Jorge Nóbrega. Um samba-manifesto por direitos, justiça, liberdade e democracia. Um grito reprimido por mais de duas décadas de ditadura militar naquele que foi o “Carnaval da Nova República”.

Período fértil da cultura e do Carnaval carioca, os anos seguintes à abertura política no país são retratados no livro “Unidos da Democracia – As Escolas de Samba do Rio de Janeiro e os enredos políticos da década de 1980”, que resulta da tese de pós-doutorado do ator, professor e historiador Guilherme Guaral pela Universidade de São Paulo (USP).

O pré-lançamento pela Sophia Editora acontece ao mesmo tempo em que as escolas voltam à Sapucaí, em abril de 2022. Nesta segunda-feira (18), a editora vai promover uma live de pré-lançamento com o autor, às 18h, por meio de seus canais oficiais (@sophiaeditora).

A obra

Ao longo das 540 páginas, a obra traça um amplo e minucioso painel da época, ano a ano, de todos os acontecimentos políticos que, de alguma forma, desaguaram nos 700 metros de pista do Sambódromo, como a anistia; a campanha das Diretas Já; a Assembleia Nacional Constituinte, que resultou na elaboração da Carta Magna de 1988; e as eleições presidenciais de 1989, as primeiras realizadas em 29 anos.

O livro passa pelas memórias afetivas do autor, por aspectos teóricos da comunicação e pela produção de sentido por meio da linguagem ritualizada e audiovisual das escolas de samba e por uma reflexão sobre a influência dos enredos políticos da década de 1980 no atual momento da festa.

A apresentação é do jornalista e enredista João Gustavo Melo, e o prefácio, do professor e doutor Francisco Carlos Palomanes Martinho. “O trabalho de Guilherme Guaral será determinante para o entendimento do que foram, são e serão as escolas de samba do Rio”, assinala Francisco Carlos Palomanes Martinho, professor livre-docente do departamento de História da USP.

Intencionalidade política

“A ideia do livro é mostrar que as escolas de samba têm uma intencionalidade política. É o espaço para discutir e debater as condições atuais da vida, sobretudo no momento que a gente está vivendo: a perseguição ao que é cultural, a perseguição a ter opinião, a ter participação, a ter engajamento nas questões ligadas à cultura, às minorias”, avalia Guaral.

O autor destrincha desfiles históricos, fortemente carregados de temática social, seja com irreverência ou nacionalismo, caso da Caprichosos de Pilares, do carnavalesco Luiz Fernando Reis (“E por falar em saudade”, de 1985, e “Brasil com Z, não seremos jamais ou seremos?”, de 1986, entre outros), seja colocando o dedo na ferida, como fazia a São Clemente, que se notabilizou pelos enredos de crítica engajada ao longo daquela década (“Quem casa quer casa”, de 1985, e “Capitães de asfalto”, de 1987, e outros).

Artistas visionários e transgressores, como o carnavalesco Fernando Pinto (1945-1987), também são retratados pelas suas criações, repletas de críticas com apelo social, caso de “Tupinicópolis”, apresentado pela Mocidade Independente de Padre Miguel no Carnaval de 1987.

Associada a enredos de exaltação ao regime militar até 1976, a Beija-Flor de Nilópolis tem destaque no livro pelos devaneios críticos de Joãosinho Trinta (1933-2011), que resultaram na sua ousadia maior: “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia” (1989) — considerado por muitos como o maior desfile da história —, que aparece em destaque na capa do livro, ilustrada por Ronnie Foster.

Autor vê semelhanças entre o momento retratado pela obra e os dias atuais

“As escolas de samba saíram um pouco daquela lógica dos enredos mais tradicionalista, de uma história oficial, e puderam cantar as nossas agruras, as nossas mazelas, mas também os nossos sonhos, desejos e utopias. Então, acredito que é importante lembrar esse momento. Acho que estamos vivendo algo parecido, em que as escolas estão voltando a refletir o cotidiano na avenida”, analisa Guaral.

Sonho de um país

Escritor, jornalista, doutorando em Artes pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), João Gustavo Melo, que também faz a introdução da obra, ressalta que a pesquisa de Guaral mira com acuidade as rupturas e processos inacabados de reconciliação de um país reinventado, recontado e reescrito em desfile sob vários prismas.

“Nos anos de 1980, tempo de subversões e experimentações, muito do que cingia no radar da esfera pública era captado e reprocessado pelas agremiações carnavalescas”, escreve Melo.

Neste contexto, não ficam de fora do livro histórias curiosas, como a reação de carnavalescos às investidas de censores aos barracões. A memória coletiva social dos reflexos do regime militar na produção cultural contada por seus personagens mais atuantes. Unidos da Democracia é um desfile pelos temas que envolveram a sociedade no mundo real e foram transformados em alegorias carnavalescas, como destaca Melo: “Vivia-se o sonho de um sonho de país que queria despertar”.

Ficha

TÍTULO: Unidos da Democracia – As Escolas de Samba do Rio de Janeiro e os enredos políticos da Década de 1980

AUTOR: Guilherme Guaral

PÁGINAS: 540 p.

PREÇO: R$ 110

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