O Iphan já aprovou projeto da Fundação para construir no local o Memorial Padre Antonio Vieira, mas ninguém sabe de onde virá o dinheiro
POR OSWALDO VIVIANI e JULLY CAMILO
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Motoristas e moradores da Rua Jacinto Maia, no Centro Histórico, reclamam do fechamento da via, há mais de 10 anos, feito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Maranhão (Iphan-MA) e pela Fundação José Sarney (estatizada por um projeto de lei do governo Roseana Sarney, em 2011, e rebatizada como Fundação da Memória Republicana Brasileira).
Tapumes presos a um meio-fio tomam conta da rua, e, por conta disso, a lateral do Convento das Mercês, sede da Fundação, foi transformada pela comunidade do Bairro do Desterro num “lixão”, onde todo tipo de sujeira e entulho é atirado por cima do tapume por populares.
Devido ao bloqueio da Rua Jacinto Maia, a interligação entre as áreas da Avenida Beira-Mar e da Avenida Magalhães de Almeida foi cortada, e só pode ser feita se o motorista der uma extensa volta por várias ruas, estreitas e às vezes esburacadas, do Centro Histórico.
O comerciante cearense Mário Sena, de 69 anos, contou ao Jornal Pequeno que, quando a rua foi fechada, a informação divulgada pelos administradores do convento aos moradores era de que seria construída ali uma igreja. Porém, o projeto nunca saiu do papel. Sena, que já mora no Desterro há mais de 40 anos, disse que, quando chegou, a via era trafegável.
“Hoje, baratas, ratos, gatos e cachorros, entre outros bichos, são atraídos para o convento e arredores pelo lixo. Sem contar o prejuízo à mobilidade dos motoristas”, declarou o comerciante.
O motorista Francisco Cunha, 59, afirmou que trabalha no Centro, mas há vários anos deixou de utilizar a Rua Jacinto Maia como atalho. Ele comentou que apenas pedestres e motociclistas conseguem trafegar pelo local, ainda assim, com dificuldade.
“Não entendo o motivo do bloqueio em uma rua pública. Também não entendo como a Prefeitura nunca fez nada para desobstruir a via, que é um canal importante de ligação entre as ruas do Reviver e outras áreas do Centro. Os tapumes colocados nessa rua deixam apenas um corredor estreito, que só serve para esconder os viciados, que se drogam aqui à noite”, disse Francisco.
Igreja e achados arqueológicos – A presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira, a advogada Anna Graziella Santana Neiva Costa, confirmou, basicamente, ao JP a história contada pelo comerciante Mário Sena. Esclareceu que a ideia inicial era reconstruir, na lateral do convento, a Igreja Nossa Senhora das Mercês, demolida em 1933. Na época em que surgiu a proposta da reconstrução, o convento já teria sofrido várias intervenções na arquitetura original, para abrigar o Quartel da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros.
Porém – explicou Anna Graziella –, por se tratar de uma área histórica, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Maranhão (Iphan-MA), aprovou a ideia, mas solicitou um estudo arqueológico da área.
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“Não tenho muitos detalhes referentes à logística das escavações feita na época, mas sei que uma empresa de outro estado foi contratada para fazer as escavações. O Iphan e um corpo de arqueólogos contratados acompanharam todo o processo. O fato é que as estruturas arqueológicas e as fundações da antiga igreja foram encontradas, e por isso o Iphan solicitou a colocação dos tapumes, para proteger a área, fechando a rua”, disse a presidente.
De acordo com Anna Graziella, o processo acabou se tornando lento e delicado, devido aos vestígios arqueológicos encontrados, que precisam ser estudados e preservados durante a fase das escavações.
Ela informou, ainda, que existe uma série de diretrizes que devem ser seguidas nos trabalhos, por se tratar de uma área pertencente ao Patrimônio Cultural da Humanidade.
“Quando assumi a Fundação, em outubro de 2012, dei continuidade às tratativas com o Iphan-MA e precisei recuperar parte dos projetos e documentos, para darmos sequência à etapa de execução. Na realidade, a ideia atual é construir no local o Memorial Padre Antonio Vieira, preservando as características da Igreja das Mercês, conforme o que foi encontrado nas escavações arqueológicas. O nosso objetivo é construir sem danificar nada. O sinal positivo do Iphan já veio. Agora, vamos partir para o próximo passo, que é buscar recursos para a concretização das obras”, disse Anna Graziella.
Notificação da Blitz Urbana – Segundo a diretora, há dois meses a Blitz Urbana Municipal notificou a Fundação sobre a interdição do trecho em questão da Rua Jacinto Maia.
A notificação, conforme Anna Graziella, foi encaminhada ao Iphan-MA, para que o órgão esclarecesse à Prefeitura os motivos do bloqueio da via.
Em relação ao “lixão” na área do convento, a diretora afirmou que “é uma pena que ele esteja ali, já que realizamos um trabalho rotineiro de limpeza na área, mas infelizmente as pessoas continuam sujando o que deveria ser preservado”.
‘Não prejudica em nada’ – A superintendente do Iphan no Maranhão, Kátia Bogéa, disse ao JP que os vestígios arqueológicos são amparados por leis federais e precisam ser preservados. Por isso, segundo ela, houve a necessidade da interdição na área.
Kátia relatou que o trecho protegido é uma extensão da antiga Igreja Nossa Senhora das Mercês, e, por isso, quando o projeto for executado pela Fundação da Memória Republicana Brasileira, o local permanecerá como está.
“Existem várias ruas de acesso a outras áreas no Centro Histórico, e a interdição deste pequeno trecho não prejudica em nada a população. O mais importante é que parte da nossa história será resgatada e poderá ser apreciada por todos”, disse a superintendente, acrescentando:
“O projeto é muito bonito e contempla a construção do Memorial do Padre Antonio Vieira, em cima da igreja, porém, com um piso de vidro, preservando as fundações originais e todo o seu traçado. O Iphan aprovou o projeto. Agora, cabe à Fundação conseguir os recursos para a execução das obras”.
Prefeitura – A Prefeitura de São Luís informou, por meio de nota, que o trecho da Rua Jacinto Maia, no Centro Histórico, foi fechado por tapumes pelo Iphan-MA e bloqueado o tráfego de veículos na área, por se tratar de uma área com tombamento federal e para proteger os achados arqueológicos da Igreja das Mercês.
A Secretaria Municipal de Obras e Serviços Públicos (Semosp) informou que uma equipe seria encaminhada ao local para executar os serviços de limpeza no terreno lateral ao prédio do convento.