13/06/2024
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Produto natural promete aumentar libido feminina; cientistas são céticos

GIULIANA MIRANDA
DE SÃO PAULO
Recém-aprovado nos EUA, o “viagra feminino” –remédio Addyi, primeiro liberado para tratar disfunção sexual nas mulheres– ainda está longe de chegar às farmácias brasileiras. Mas as lojas e sites de produtos naturais do país estão abarrotadas de opções que prometem turbinar o apetite sexual feminino.
Usados juntos ou de forma individual, a lista inclui chá de diferentes raízes, infusões com erva daninha e até uma planta andina de nome exótico. Para os especialistas, faltam evidências científicas que comprovem a eficácia desses métodos naturais.

Mesmo assim, a popularidade e a variedade à venda não param de crescer.
Nesse mundo, a maca peruana, um tubérculo originário dos Andes, é a mais recente sensação. Algumas pesquisas indicaram que o vegetal estimularia a produção de testosterona, favorecendo o desejo sexual.
“Testosterona não é tudo. Todo mundo coloca muita coisa em cima da testosterona, mas ela sozinha não vai nunca fazer a mulher se liberar”, diz o médico e terapeuta sexual João Luis Borzino.
Outros produtos afrodisíacos “famosos”, como a catuaba (nome vulgar de diferentes ervas brasileiras, popularizado pela bebida alcoólica), o chá de laranjeira e o Tribulus terrestris (veja ao lado) também não são poupados do crivo dos especialistas.
“Em termos científicos, esses métodos não têm qualquer eficácia”, diz Theo Lerner, ginecologista e membro do Ambulatório de Sexualidade do Hospital das Clínicas da USP.
Apesar da falta de comprovação documentada da eficácia dos princípios ativos, eles podem funcionar de maneira benéfica para algumas: maca peruana, catuaba e as diferentes opções de elixires podem atuar como um placebo.
“Tem mulher que se sente muito melhor por estar usando um produtinho desses. E aí se solta, relaxa… Mas não necessariamente pela substância. É uma coisa de autoconfiança”, avalia Borzino.

PROBLEMA COMUM
Pesquisas no Brasil e no exterior indicam que a disfunção sexual feminina é um problema comum, tanto em jovens quanto nas mais velhas.
Um levantamento feito em São Paulo com as participantes do Ambulatório da Sexualidade do HC indica que 65% das mulheres se queixam da falta de libido e 23% da ausência de orgasmos.
São relativamente poucos os problemas biológicos que comprometem o desejo e as relações sexuais, como algumas alterações na tireoide, depressão e a vaginite. A maioria dos casos tem forte componente emocional.
O sexólogo João Borzino destaca que as mulheres ainda sofrem mais repressão a seu comportamento, o que deixa profundas marcas em relação ao sexo.
“Há quem ache o próprio corpo tão sujo, tão proibitivo, que não tem nem coragem de introduzir o dedo na vagina para colocar um absorvente interno”, diz ele.
Há um mês em tratamento para lidar com a falta de libido, a professora Daniela (nome fictício), 40, diz ser muito insegura com sua aparência. “Sou casada há dez anos e, há dois, não consigo mais transar com o meu marido com a luz acesa e sem pelo menos uma camiseta”.
Para os especialistas, não existe uma fórmula única para lidar com a questão, mas eles ressaltam que a terapia psicológica e um trabalho de conhecimento corporal costumam ter papel muito importante.
“Não tem fórmula mágica ou única para todas, nem o ‘viagra feminino'”, ressalta Theo Lerner. A pílula americana, embora aprovada pelo órgão regulador americano, sofre críticas de que não apresentou evidências científicas suficientes que a legitimem.
Estudiosa da sexualidade feminina anos e autora de livros sobre o tema, Albertina Duarte, coordenadora do programa Saúde do Adolescente da secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, ressalta a importância de trabalhar a autoestima feminina.
“O ponto G também está no ouvido. A mulher precisa se sentir desejada, gostosa. O grande viagra é melhorar como a mulher se sente”, diz. 

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