19/04/2024
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Sobreviventes da Aids

Histórias da geração pós-coquetel, como a da pianista que recebeu diagnóstico da doença aos 67, estão em livro que mostra evolução do tratamento do HIV desde os anos 1980

CLÁUDIA COLLUCCIDE SÃO PAULO

Quando foi diagnosticada com Aids, aos 67 anos, a pianista Olivethi Oliva Cahli só pensava numa providência: comprar um esmalte vermelho e sair marcando pratos, talheres, xícaras e copos do seu uso pessoal.
Sem saber das formas de transmissão do vírus HIV (relações sexuais e transfusão de sangue), a viúva, mãe de dois filhos e avó de três netos temia contaminar a família.

Dias antes, sentindo fraqueza e falta de ar, ela havia sido internada com pneumonia. No hospital, após uma bateria de exames, o médico deu a notícia de supetão. “A senhora tem Aids.”
“Parece que o prédio caiu na minha cabeça. Naquela época, ninguém falava que uma mulher casada, na minha idade, podia ter Aids. Fiquei apavorada”, conta.
A população com mais de 60 anos é uma das faixas etárias em que a ocorrência de casos de Aids mais cresceu na última década–32% entre 2014 e 2013–, só perdendo para o aumento de 53% entre os jovens, entre 15 e 19 anos.
Hoje, aos 88 anos, Olivethi dá risada quando lembra do dia em que recebeu o diagnóstico. “Meu filho ficou furioso, queria matar o médico. Dizia: ‘Onde já se viu o senhor falar para uma senhora de idade que ela que tem Aids?'”.
A pianista, intérprete de Chopin (1810-1849), não sabe como se infectou, mas suspeita que tenha sido por meio do marido. “Só tive relações com um homem na minha vida, o meu marido, e nunca fiz transfusão de sangue.”
O marido morreu em 1993, um ano antes do diagnóstico de mulher. Diabético, caiu no banheiro e foi para a UTI, onde sofreu falência dos órgãos. A família não sabe se ele fez teste para HIV na internação.
Olivethi diz que não pensa no assunto. “Se ele me traiu e me contaminou, já o perdoei. Quem nunca errou?”
Há muitos anos sem sinais do vírus HIV no sangue, ela conta que até esquece “do bicho”. “Eu nunca aceitei a doença. Coloquei na cabeça que ela não me pertence.” Toma religiosamente o coquetel, combinação de comprimidos que controlam a disseminação do HIV. “Antes dele, o remédio [AZT] fazia muito mal, me sentia fraca, enjoada. Hoje não sinto nada.”
A pianista adora praia e está sempre viajando para visitar os filhos que moram no Rio de Janeiro e em São Paulo. “Tenho tanta energia que minhas amigas já brincaram dizendo que vão tomar o coquetel também para dar conta de me acompanhar.”
OUTRAS HISTÓRIAS

A história de Olivethi é uma das cinco que estão no livro “Histórias da Aids” (editora Gutenberg, R$ 34), que o médico Artur Timerman e a jornalista Naiara Magalhães lançam no próximo dia 21.
São pacientes “pós-coquetel”, homens e mulheres com HIV que levam uma vida praticamente normal, situação muito diferente da vivida pelos doentes no início da epidemia, na década de 1980.
Os relatos vêm entrelaçados com a história da evolução da Aids.
“Era gente jovem escapando entre os dedos que nem água, morrendo por um problema que ninguém sabia tratar”, relembra o infectologista Timerman, que trabalhava no Hospital das Clínicas quando a epidemia eclodiu.
À época, o temor dos pacientes não era nem a morte quase certa, mas o que constaria no atestado de óbito.
“Havia muito estigma. Companhias se recusavam a pagar seguro de vida às famílias se a causa da morte do segurado fosse a síndrome.”
Em 1996, 15 anos após o anúncio dos primeiros casos de Aids, começou a ser usado o coquetel, o que tornaria a Aids uma doença possível de tratar –embora muitas mortes ainda ocorram por conta do diagnóstico tardio ou da falta dele.
Do ponto de vista científico, o que se busca agora é a cura, assunto que encerra o livro. Segundo Timerman, os pesquisadores contam com a ajuda de pessoas naturalmente resistentes à doença.
Por características genéticas, 2% da população mundial não se contaminam pelo vírus mesmo quando expostos. Outros 5% adquirem o vírus, mas não ficam doentes, pois o organismo é capaz de controlar o HIV espontaneamente, sem remédios.
Uma das frentes de pesquisa mais avançadas nessa área envolve o uso de engenharia genética. “A marcha da cura é irreversível. E a esperança nunca esteve tão viva”, diz.
HISTÓRIAS DA AIDS
Lançamento Dia 21/7, das 18h30 às 21h30, na livraria da Vila (alameda Lorena, 1.731, São Paulo)

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